22 Jan 2018 | domtotal.com

A vida numa folha de papel

Talvez a dificuldade de viver seja a de saber escrever.

Escrever é como viver. Viver é como escrever.
Escrever é como viver. Viver é como escrever. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Escrever é como viver. A vida é uma página em branco diante de mim. Às vezes a sinto como uma série em que cada capítulo tem uma história independente, embora o conjunto forme uma história maior. E assim me parece porque talvez importe mais o que a gente escreva daqui para frente do que aquilo que passou.

É claro que, como em qualquer narrativa, o passado é responsável pelo presente. Contudo, uma reviravolta pode fazer com que tudo mude. Não sou escravo ou vítima de minha história, sou seu ator e autor. Como personagem, estou suscetível aos outros, às circunstâncias, a um monte de coisas que me fogem. Entretanto, como autor, cabe a mim sempre uma escolha.

Talvez a dificuldade de viver seja essa, a de saber escrever. Viver é como escrever. Quem não sabe ler, também não sabe o que escreve, apenas desenha letras. Para ser autor da própria história, deve-se saber ler a vida, compreender seus códigos, regras e sinais, até mesmo para romper com tudo isso, criando neologismos e fazendo usos não autorizados pela norma culta. E se não damos conta de expressar o que queremos em uma língua, porque não dizê-lo em outra? Mudar o sistema com o qual se vive é mudar de linguagem.

Possivelmente esse seja o grande erro de quem queira reaprender a viver, tentar mudar o sistema repetindo a gramática do idioma anterior. No novo, há de se descobrir que além do masculino e do feminino há o neutro; que verbo pode não só conjugar, mas declinar; que nem toda palavra tem um par, mas pode ser dita numa expressão. Abraçar novos modos de vida implica em mudar de mentalidade, nem que para isso tenhamos que ser um personagem de nós mesmos, como quem muda a voz quando fala em outra língua.

Nosso vocabulário se amplia quando acessamos a leituras às quais não estamos tão familiarizados e é possível compreender melhor a própria língua quando se aprende outra. Frequentar meios diferentes aos habituais e conviver com outras formas de pensar e viver permitem que o entendimento sobre a própria vida se altere. Quando vemos que determinadas rigidezes são mero formalismo, começamos a brincar com a linguagem e fazemos poesia. Ou então, o que é melhor, brincamos com nossa história, de modo leve, e a vida se torna poesia.

Pré-carnaval

Carnaval é tempo de mistura, quando a linearidade da vida formal se quebra por alguns dias, dando lugar à brincadeira, onde ritmos, estilos e cores se encontram numa grande festa. E como esse tempo é tão importante, acabamos antecipando e prolongando nos “pré” e “pós” carnaval.

Quem acompanha as movimentações da cidade sabe que a festa já começou. No dia 27 de janeiro, vai acontecer um encontro pra lá de bacana com apresentação Candombe do Açude, ensaio do Pena de Pavão de Krishna, ensaio do Bloco Coco da Gente e roda de coco com a banda Coco da Gente. Além disso, os DJs Encorpore-se e Toda Atrativa estarão presentes.

O Candombe é considerado tradicionalmente a primeira forma de expressão cultural do Congado; o PPK (Pena de Pavão de Krishna) é um bloquito de ijexá; o Coco da Gente é um coletivo mineiro de pesquisa e disseminação da cultura popular com foco nos Cocos do Nordeste.

A festa vai acontecer no NECUP - Núcleo de Estudos de Cultura Popular - Belo Horizonte, MG, do dia 27 de janeiro, às 22h até às 05h do dia 28. Maiores informações e ingressos na página do evento e no Sympla.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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