30 Jan 2018 | domtotal.com

Das contradições de viver

Construímos estruturas imensas que complicam nossas vidas.

O carnaval é festa que celebra a quebra dos paradigmas e ditames sociais que regem o dia-a-dia.
O carnaval é festa que celebra a quebra dos paradigmas e ditames sociais que regem o dia-a-dia. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Tem dias que a gente quer carinho e foge. Ser amado dói. Parece que nas situações em que nos sentimos pequenos e, justamente por isso, precisamos de abrigo e ser acolhidos, acabamos fugindo de quem possa nos abraçar porque parece que nos vai abarcar, engolir.

Deixar-se ser amado implica em reconhecer as próprias limitações, finitudes, falhas. Envolve assumir-se insuficiente e necessitado de alguém, ainda que seja afetivamente. Aceitar isso, dispor-se a outro, significa se vulnerabilizar, expor as fragilidades, desarmar-se. Tudo justamente na hora em que mais se quer ser grande e forte.

Dizem que devemos amar a nós mesmos para depois amar os outros. Possivelmente amar a si não é tanto o problema, uma vez que há uma tendência humana a buscar o próprio amor querer e interesse. O mais difícil, talvez, seja deixar-se amar, porque nisso está implicado um duplo reconhecimento, o de que mereço ser amado e de que o outro é digno de mim.

Quando dizem que precisamos aprender a nos auto-amarmos, o que se quer dizer, na verdade, é que precisamos gostar de quem somos, com nossas qualidades e defeitos. Trata-se de uma questão de autoimagem. Escalonamos uma série de valores que, muitas vezes, não encontramos suficientemente nem em nós próprios. Assim, julgamo-nos menos, indignos de sermos amados e, consequentemente, passamos a buscar coisas que nos deem a sensação de satisfação ou valor. Contudo, se nos temos por menos, não consideramos o valor que nos autoatribuímos. Portanto, a melhor experiência de amor deve vir de outrem, ou melhor, deixando-nos amar pelos outros.

Essas coisas constituem o paradoxo da condição humana que foge quando quer ser amada; que, para se amar, precisa deixar-se ser amado; para encontrar a própria grandeza, deve aceitar sua pequenez. Foi para lidar com as contradições, permitir-se o erro, assumir a finitude da natureza que a humanidade criou espaços de exceção à sua pretensa autosuficiencia e perfeição. Assim o é em datas como o carnaval, quando homens podem se reconciliar com o feminino que há em si vestindo-se de mulher, as fantasias tomam o lugar das máscaras sociais que se veste no cotidiano, o caricato ocupa o lugar do formal que pesa as relações.

Construímos estruturas imensas que complicam nossas vidas. Assim, dizemos não quando queremos dizer sim e vice-versa. Negamos desejos, vestimos falsas moralidades, fugimos do amor. Negamos nossa realidade como sombra e dela fugimos; e como tal, ela nos acompanha e, quanto mais corremos, mais ela nos persegue. Só encontramos paz quando a abraçamos, quando aceitamos nossa finitude, mazelas, limites, características. Afinal, nada disso é necessariamente ruim. Só temos medo disso porque constituem parte daquilo que desconhecemos em nós mesmos, que cremos nos prejudicar se for vivido. E por isso se segue a vida sem ser amado, sem ser feliz.

Carnaval

O carnaval é festa que celebra a quebra dos paradigmas e ditames sociais que regem o dia-a-dia. E essa festa já começou na capital mineira e promete ainda mais nos próximos dias. Para se programar para o carnaval, a dica é baixar os aplicativos com a programação das atrações. Alguns blocos expressaram a não inclusão de sua agenda , por isso fique ligado nas redes sociais também para se informar. Dentre os aplicativos, detacam-se Bloco na Rua BHCarnaval de Belo Horizonte OficialCarnaval Belô.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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