02 Fev 2018 | domtotal.com

'Meu delírio é a experiência com coisas reais'

Independente do que fez o PT, ou deixou de fazer, o que está acontecendo é demolidor para a democracia.

É como se dissessem, agora é guerra. Deixamos a seara da política e adentramos a da força.
É como se dissessem, agora é guerra. Deixamos a seara da política e adentramos a da força. (Agência Brasil)

Por Marcel Farah

Muito se fala das ilicitudes descaradas da condenação em primeira e segunda instância de Lula, e do outro lado da torcida da legalidade e legitimidade da condenação, afirmando ser uma ilusão, um absurdo acreditar que exista uma “conspiração” contra o ex-presidente.

Por vezes as duas posições são extremamente passionais, refletindo o fla-flu político que vivemos. Por vezes tenta-se dar um ar mais sóbrio às críticas buscando credibilidade.

Algumas avaliações extrapolam o caso em si adentrando em uma avaliação política dos governos petistas e do próprio PT, por ocasião do julgamento de Lula.

Muitos colocam a culpa do que está acontecendo no colo do PT.

É o caso de quem não deixa de lembrar que a composição do atual STF foi quase toda nomeada por governos petistas, que o PT não enfrentou o monopólio da mídia, que em seus governos não se mexeu nas estruturas autocráticas do Judiciário, e por ai vai. No caso da esquerda não petista.

É o caso também dos que defendem ser a esquerda parcial, buscando acusar os outros e proteger os seus, já que o julgamento e a condenação tiveram sua lisura reafirmada pelo “elogioso” trabalho do TRF4. No caso da grande mídia e dos coxinhas.

Independente do que fez o PT, ou deixou de fazer, o que está acontecendo é demolidor para a democracia. Afinal criam-se precedentes contra todo acúmulo civilizatório do direito moderno para condenar uma pessoa a qualquer custo.

Há conspiração? Não sei. Mas há nítido desrespeito à presunção de inocência, cerceamento ao direito de defesa, abuso de poder, inadequação típica (as ações de Lula não se encaixam em nenhum crime previsto em lei), constantes posicionamentos públicos contrários ao réu, além da falta de provas cabais. Sem provas que não deixem dúvidas, não se condena. Isso é uma conquista da civilização, não é do Lula.

Este julgamento é a cereja do bolo do golpe, pois permite a legitimação de todo o processo de impedimento de Dilma, visto que pouco importa a lei frente a vontade política dos operadores jurídicos.

Um judiciário parcial, que desrespeita as leis e que legitima um golpe de estado é uma ameaça ao regime político, às regras do jogo. Portanto, passamos da fase de disputa ideológica para, digamos, a de disputa concreta de poder.

Até conservadores e reacionários – porém honestos intelectualmente – como Reinaldo de Azevedo, entendem que se formou um juízo de exceção para julgar Lula. O articulista denuncia cotidianamente que o triplex não é e nunca foi do petista, e que os juízes (os quatro: três do TRF4 e Murow) são parciais e tem se contorcido para fundamentar juridicamente seu julgamento político.

Mas o jogo, na realidade concreta da história, sempre foi assim. Quando os privilégios das elites não cabem mais nas regras elas quebram as regras. A burguesia, enquanto segmento social, enquanto classe social, nasceu, cresceu e se desenvolveu assim, bancando mudanças de regime toda vez que o mesmo não lhe era útil. Por que isso mudaria agora? Seriam as regras mais sólidas do que antes?
Parece-me que no cenário atual não vale mais a mediação, os acordos, o “fair play”, aquele em que o atleta perdedor ergue o braço junto com o do ganhador, demonstrando que aceita a derrota, e tem honra por isso.

É como se dissessem, agora é guerra. Deixamos a seara da política e adentramos a da força.

Contudo, esta não é uma guerra nova. Para as periferias, para populações do campo, para as negras, pobres, para quem foi sistematicamente oprimido pelo sistema, não teve escolas boas, não tem empregos bons, esteve a vida inteira a merce do “baculejo”, da cadeia, da morte que ronda a vizinhança, este é o cotidiano.

Para a maioria da classe trabalhadora o motor da história nunca deixou de ser a luta de classes, e o absurdo é acreditar que a Justiça algum dia foi justa.

O que está acontecendo com Lula é um banho de realidade. Não quer dizer que é certo. É errado, sempre foi. E sempre houve quem ignorasse isso em defesa da ilusão de que o Judiciário é justo, de que a democracia existe sob o capitalismo.

Lembrei de Belchior: Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente, romances astrais/ A minha alucinação é suportar o dia-a-dia,/ E meu delírio é a experiência com coisas reais.

Marcel Farah
Educador Popular
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