08 Fev 2018 | domtotal.com

O destino de uma nação


O filme é quase todo baseado em fatos reais, mas o diretor Joe Wright não resistiu a incluir um pouco de fantasia na narrativa.
O filme é quase todo baseado em fatos reais, mas o diretor Joe Wright não resistiu a incluir um pouco de fantasia na narrativa. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Conhecer a história é uma das melhores maneiras de não repetir os erros do passado. Winston Churchill aprendeu isso a duras penas e se transformou num dos maiores estadistas de todos os tempos. O novo filme de Joe Wright, “O destino de uma nação”, mostra exatamente os instantes decisivos da Inglaterra diante da ameaça nazista. Não fosse Churchill, a história teria sido outra.

Enquanto o ex-primeiro ministro Chamberlain insistia na possibilidade de assinar um acordo de paz com Hitler, o até então desmoralizado Churchill acreditava exatamente no contrário. “Você não pode negociar com um tigre quando ele tem sua cabeça na boca”, insistia ele na intenção de persuadir seus compatriotas a enfrentar o implacável inimigo.

A história já é conhecida, mas revê-la, sobretudo, nos tempos atuais seria de bom alvitre. O ponto alto, contudo, é a insuperável interpretação de Gary Oldman no papel de Churchill. Magro e de estatura média, o ator shakespeariano que tantas vezes nos deu papéis impagáveis – como o Beethoven de “Minha amada imortal” ou o “Drácula de Bram Stoker” – consegue ir além de suas performances anteriores, o que já lhe valeu o Globo de Ouro.

Tantas vezes preterido para o Oscar, dessa vez Oldman dificilmente escapará de levá-lo para casa. O ator engordou para o papel de Churchill, sendo também auxiliado por enchimentos, próteses de borracha e pesada maquiagem. Contudo, como em todo grande intérprete, é o brilho do olhar e o modo de falar que nos dão suporte para acreditar que de fato estamos diante do protagonista que praticamente venceu a Segunda Guerra.

O ministro e o rei

O filme é quase todo baseado em fatos reais, mas o diretor Joe Wright não resistiu a incluir um pouco de fantasia na narrativa – o que geralmente serve de tempero para a visão rotineira dos grandes episódios. Isso se dá quando o protagonista embarca numa linha do metrô londrino para conversar com gente do povo e saber o que pensam sobre a ameaça nazista. Diante do furor patriótico dos cidadãos comuns, ele escreve o discurso que convencerá o Parlamento de que o melhor a fazer é enfrentar os nazistas a ferro e fogo.

Uma cena extraordinária é o segundo encontro de Churchill com o rei gago, George VI (Ben Mendelsohn), pai da futura rainha Elizabeth II. Diante dos riscos de ver a residência real atingida pelas bombas inimigas, o primeiro-ministro tenta convencer o rei a se retirar para o Canadá com o objetivo de proteger sua família. Sua majestade, no entanto, pergunta como o povo poderia ter confiança na vitória de um reio fugitivo.

A história é feita de homens como esses e não de covardes como aqueles que hoje ocupam o noticiário. Por capricho do destino ou decisão divina, existem momentos em que grandes personalidades se tornam contemporâneas, desempenhando seus respectivos papéis no teatro da existência. Realidade ou ficção, a conversa entre o ministro e o rei é, sem dúvida, um dos instantes cruciais de “O destino de uma nação”. 

Não fosse pela persistência, arrogância e capacidade de convencimento de Churchill, o nazismo certamente teria vencido a guerra e estendido seus tentáculos além do Canal da Mancha. Se o pusilânime Stalin pagou o preço de ter confiado no inimigo, ao firmar com ele o pacto que dividiu a Polônia ao meio, foi o primeiro-ministro britânico quem deu o passo decisivo para apoiar os franceses e convencer os americanos a esmagarem os nazistas.

O filme se passa em 1940, limitando-se às batalhas verbais de Churchill na dura missão de convencer o Parlamento da necessidade de uma ação decisiva contra o inimigo. Contudo, é bom lembrar que foi ele, logo após a guerra, que alertou também para o perigo soviético. Diante da derrota do reich, Stálin arquitetou a ocupação do oeste europeu para ampliar o império vermelho. “Ele vai criar uma cortina de ferro”, denunciou o primeiro-ministro britânico, dando início à chamada guerra-fria.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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