14 Fev 2018 | domtotal.com

Apropriação cultural: um debate aberto

Com a globalização e a sociedade de mercado, os processos de apropriação cultural são acelerados e promovidos com fins comerciais.

Carecemos de treinar o pensamento, operar deslocamentos e pensar desde outro lugar.
Carecemos de treinar o pensamento, operar deslocamentos e pensar desde outro lugar. (Reprodução/ file.org)

Por Gilmar Pereira

Com o carnaval e o uso de fantasias de índio o tema da apropriação cultural volta ao debate. Este consiste, como o próprio nome mostra, tomar para si a cultura de outrem. Esse termo tem sido usado, particularmente no âmbito da folkcomunicação, para falar de dois tipos de processos comunicacionais: 1) Quando empresas buscam identificar-se com seus públicos utilizando-se de suas representações; 2) Quando empresas se apropriam dos símbolos e do imaginário de determinadas culturas com fins mercadológicos. Temos dois tipos de apropriação cultural, portanto, um que busca uma melhor comunicação e outro que trata as culturas regionais como um fetiche, dando-lhe visibilidade para que sejam consumidas como produtos.

Ora, em sentido amplo, a apropriação cultural já acontece no momento de encontro entre as diversas culturas. Assim o é desde sempre. Zeus só se torna o pai dos deuses quando o povo que o cultuava foi conquistando outros povos e colocando os deuses destes como também seus, mas em segunda categoria. A personalidade do Deus de Israel seria também uma junção dos atributos de todos os deuses conquistados pelo povo hebreu até o ponto de não poder mais ser representado, porque abrigaria em si todos os deuses vencidos. Ainda que milenares, não há pureza cultural. Há encontros de culturas, há assimilações mútuas.

O povo guarani, do qual descendemos como nação, em sua antropofagia entendia que era possível ser outro sem deixar de ser ele mesmo. Quando venciam outro povo, tomavam seu maior guerreiro e o levavam para sua tribo. Ali aprenderiam dele seus cantos, ritos, costumes, tradições. Ao fim, matavam-no e faziam uma espécie de guisado que seria consumido por toda a tribo com o intuito de adquirir sua valentia e força. A antropofagia era um misto de respeito e admiração pela cultura e força do outro que se queria assimilar. A relação de poder aí é complexa porque o vencedor quer devorar o vencido, mas o vencido sobrevive, altera e se impõe, de alguma forma, sobre o vencedor.

Com a invasão portuguesa, muitos grupos indígenas se apropriaram da indumentária dos colonizadores, como alguns pajés o fizeram com as roupas e objetos dos padres. Eles queriam o melhor do povo que chegava. Historicamente somos acostumados a falar da imposição da cultura branca sobre a indígena, como se ela fosse completamente passível. Ao mesmo tempo, o colonizador também teve que se alterar, incorporando elementos indígenas. Sem essa transição de valores em um primeiro momento, a presença portuguesa jamais seria aceita pelos povos originários. O genocídio dos povos originários decorre do modo como a Metrópole se aproveita da abertura da troca cultural. Há de se distinguir o intercâmbio de valores e o uso político que se segue.

A bem da verdade, o catolicismo que se impôs nas terras tupiniquins nunca foi o “apostólico romano” com sua pretensa pureza. Embora vencida e dominada, a cultura indígena se insurge e resiste na nova cultura estabelecida. As benzedeiras, com suas rezas, chás e curas guardam algo que o Direito Canônico não poderia prever. Se aos sacerdotes da Igreja cabe o múnus de santificar pelos sacramentos, ao povo, a reza de suas benzedeiras sempre foi mais forte, tirando quebranto ou curando coisas que a medicina demoraria a descobrir e a hierarquia comumente se ressente da insurreição indígena que sobrevive nos seus ritos. Pacha Mama, a mãe terra, ainda é sincretizada com Nossa Senhora nas terras incas e o rito de construção de casas por lá é uma consagração à deusa com aparências católicas porque é a terra quem recebe a fundação predial.

Desse modo, temos uma dupla questão, a da possibilidade ou não de dominação de uma cultura sobre a outra com as sobrevivências e o rastro ou contaminação que uma deixa sobre a outra e a do fetiche que o diferente exerce sobre o outro. Tais dinâmicas são próprias dos processos culturais e de encontro de culturas, o que sempre é conflitivo porque os elementos organizadores de um grupo se prestam como seus elementos identitários. Não se pode falar de essência ou identidade de um povo sem considerar que essa não existe por si mesma, porque toda cultura é dinâmica, evolui, e o que tratamos como tal não passam de identificações, elementos nos quais as pessoas vão se reconhecendo mais ou menos no interior de um grupo.

Quando esses elementos tipicamente gerados numa cultura e que expressam uma tal identidade penetram ou são adquiridos por outros grupos está acontecendo uma absorção ou apropriação cultural. Surge, portanto, o problema da dominação, imposição, influência ou absorção de um pelo outro. Com a globalização e a sociedade de mercado, os processos de apropriação cultural são não apenas acelerados, mas também promovidos com fins comerciais. Algo é retirado do contexto cultural onde surge e colocado no centro das atenções midiáticas como objeto de desejo a ser comercializado. Esse processo faz com que ele perca algo de sua significação porque é deslocado do seu lugar de sentido, o sistema de significação da comunidade na qual se desenvolveu.

Em contrapartida, quando esse processo de visibilidade não acontece, as produções culturais dos povos são relegadas ao exótico, ao mal, ao que deve ser evitado. Modelos negros, por exemplo, raramente ocupavam a passarela e seus elementos culturais eram vistos como ruins. O cabelo crespo, por exemplo, era tido como ruim e deveria ser invisibilizado. Quando o crespo e o cacho são apropriados pelos grupos economicamente hegemônicos – nesse caso o brancos de classe média alta e alta – ter cabelo negro passa a ser cool. O marginalizado passa a ter visibilidade e passa a ser um fetiche. Quer-se o turbante porque é diferente do que se tinha como belo até então. Desse modo, no momento que passa a ser considerado com mais valor, também é esvaziado do seu sentido cultural e passa a ter outro, o de produto.

A crítica que se faz dos processos de apropriação cultural hoje mesclam alguns problemas que tocam os temas identidade, sentido, fetiche, mercado, mas que resultam em impactos sócio-políticos sobre as comunidades que se tornam objeto de interesse. Sem visibilidade estão sujeitas à marginalização; visíveis, sendo foco de interesse, passíveis de controle e dominação. Mas a resistência no encontro de culturas, quando a dominadora é alterada pela dominada, põe em questão a própria dominação e a leitura simplista dessa relação. Portanto, a coisa se apresenta de uma forma mais complexa do que alguns sites fazem parecer ao dizer: “Não pode usar fantasia de índio no carnaval porque é apropriação cultural”. Apropriação cultural fala de outra coisa e ainda é uma discussão aberta [Quem quiser ler mais sobre ela há um artigo interessante aqui].

Importa questionar se no processo de apropriação cultural, embora em um primeiro momento os elementos culturais que se difundem percam algo de sua aura ou do significado no sistema de onde vieram, não representariam ainda assim um ato de resistência? Talvez a visibilidade adquirida, mesmo que descontextualizada, faça emergir triunfante saberes, estéticas e éticas até então menosprezadas e ridicularizadas. Se o racismo e a xenofobia passam pela rejeição, sua superação não estaria na valoração? É tempo de discutir.

Sobre novos modos de pensar

FILE – FESTIVAL INTERNACIONAL DE LINGUAGEM ELETRÔNICA

As discussões atuais são muitas vezes tomadas por paixões e, frequentemente, carecem de reflexão. Ao contrário, parece que há uma tese que deva ser defendida a todo custo e não pode sofre críticas, interferências ou rupturas. Parece que o pensamento dogmático dominou não só o debate político mas também as reflexões sociais. Desse jeito dizer que “isso é de esquerda” ou “isso é de direita” virou até sinônimo de ofensa. Não há mais questão sobre o significado disso. Do mesmo modo ocorre com termos complexos como apropriação cultural que é usado de modo unívoco e deturpado por sites que caçam cliques se aproveitando da sensibilidade que determinados temas causam. Carecemos de treinar o pensamento, operar deslocamentos e pensar desde outro lugar. Assim acontece no mundo da tecnologia, quando uma tecnologia substitui outra, o que é chamado de disrupção. Por exemplo, os processos fotográficos foram evoluindo em sua tecnologia. Os filmes foram evoluindo até o ponto que uma inovação disruptiva aconteceu: câmeras digitais, substituindo filmes por sensores que mudariam por completo o modo com que tratamos as imagens. Temos pensado com categorias que talvez não deem mais conta do mundo de hoje. Por isso, talvez uma boa opção seja experimentar formas de disrupção.

O File – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, que acontece no Centro Cultural Banco do Brasil até o dia 19/03, traz este ano o tema “A arte eletrônica na época disruptiva”. Um dos grandes diferenciais do festival é criar um ambiente expositivo para o visitante ter à sua disposição obras que possibilitam a interação, a imersão e a vivência em seus conteúdos. A exposição disruptiva traz ao público de Belo Horizonte uma mostra de como os artistas atualmente estão produzindo obras no contexto disruptivo, proporcionando ao público acesso à imersão nas novas tecnologias, à interação com as novas mídias, a produções artísticas que dialogam com o contexto contemporâneo em que vivemos e a vivência compartilhada.

Para uma melhor experiência em FILE, visite a exposição com roupas confortáveis, calçados sem salto, fáceis de retirar e evite acessórios. Mochilas, bolsas e sacolas deverão ser guardadas no guarda-volumes, que fica no hall de entrada. Se possível, também é melhor não trazê-las ao CCBB. As obras são imersivas e interativas e, por isso, o ideal é ir pronto para tocar, pular, balançar, jogar, brincar com as instalações. Vá para curtir e se divertir no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica.

A visitação diária à exposição se encerra às 21h30, de quarta a segunda-feira. Entrada gratuita.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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