22 Fev 2018 | domtotal.com

Ora, direis pintar estrelas

Na medida em que envelhecemos, constatamos a duras penas que a vida é uma fila que anda.

Dono de raro talento para desenhar e inventar histórias, Cláudio Martins vivia exclusivamente do trabalho artístico.
Dono de raro talento para desenhar e inventar histórias, Cláudio Martins vivia exclusivamente do trabalho artístico. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Recentemente, escrevi sobre a morte do produtor Tião Rodrigues, um dos responsáveis pela trajetória musical da saudosa cantora Helena Penna. Dias depois, perdemos o compositor Flávio Henrique. Quinta-feira passada foi a vez do escritor e ilustrador Cláudio Martins, de 69 anos, nos deixar.

Fazer o quê? Na medida em que envelhecemos, constatamos a duras penas que a vida é uma fila que anda e, quanto mais o tempo passa, mais ela tem pressa. Quando criança, vamos a batizados e festas de aniversário. Na adolescência, frequentamos bailes de debutantes, formaturas e baladas.

Na juventude, vêm os chás de panela, despedidas de solteiro, casamentos... Depois da curva da vida, quando ultrapassamos o limite da maturidade, os velórios se tornam cada vez mais constantes e nossa agenda de telefones vai se transformando num fichário de cemitério. 

Inventor de histórias

Dono de raro talento para desenhar e inventar histórias, Cláudio Martins vivia exclusivamente do trabalho artístico. Ilustrou cerca de 300 livros infantojuvenis de outros autores e fez mais de mil capas, a maioria para a Editora Itatiaia. Publicou diversas obras autorais destinadas às crianças e integrou antologias, como as duas do Coletivo 21, no qual fomos colegas.

Cláudio foi um dos grandes sujeitos do meio literário com os quais convivi. Trabalhamos no Estado de Minas, no início da década de 1990. Ali nasceu amizade de admiração recíproca. Mais que amigos, fomos parceiros em dois livros e tive outros cinco ilustrados por ele. Parte do seu trabalho está documentada no site http://www.claudiomartins.com.br/claudio.htm.

Se os escritores são tidos como competitivos e individualistas, Cláudio era uma honrosa exceção. Embora reservado, mostrava-se generoso e nunca escondia o “caminho das pedras”. Por sua indicação, participei de um importante projeto literário do SESI-SP e consegui publicar a biografia “Vandré – O homem que disse não”, pela Geração Editorial.

Passávamos horas ao telefone, lavando a roupa suja do ambiente editorial, comentando as barbaridades da política, trocando figurinhas sobre nosso trabalho. De humor fino e bom gosto estético, Cláudio tinha senso crítico e nunca fazia concessões. Geralmente ouvia jazz ou bossa-nova enquanto trabalhava. Era um livre pensador e não se deixava levar pelo discurso fácil das facções políticas.

O papel do artista
 
Cláudio Martins tinha consciência do papel do artista num país pouco afeito à leitura e com um sistema de ensino decadente. Talvez por isso fizesse ilustrações ricas em detalhes sutilmente desenhados. A cada passada de olhos, descobrimos coisas que antes nos escaparam – como a marca de uma máquina fotográfica ou o modelo de um carro antigo.

Sabedor do próprio talento, meu bom amigo preferia suar a camisa, em vez de esperar a boa vontade das musas. No entanto, era modesto e ficava sem jeito quando elogiado. Talvez por isso não tenha comparecido às cerimônias de entrega dos dois prêmios Jabuti, conquistados em 1991 e 1992.

Com publicações em outros países, ele foi nominado para o Prêmio Catalunha de Ilustração, na Espanha, e constou da lista de honra da International Board on Books for Young People (IBBY) entre os maiores ilustradores do mundo.

Sepultado em Juiz de Fora, sua cidade Natal, Cláudio Martins deixa esposa e uma filha adotiva. Lutou bravamente contra o câncer, sem perder a ternura ou o amor pelo trabalho. Contudo, a situação do país o afetava consideravelmente – tamanha sua indignação diante do cinismo e da corrupção.

Se o Brasil perdeu mais um artista, da minha parte perdi um grande amigo – o que me obrigou a acrescentar uma cruzinha na agenda de telefones. Cláudio era alguém a quem devo muito e que sempre me dizia um palavrão toda vez que eu tentava agradecê-lo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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