23 Fev 2018 | domtotal.com

O país da classe média que não queria ser desse país

A desigualdade brasileira não está dentro da normalidade e as pessoas, em geral, não têm a noção disso.

O país da classe média que não queria ser desse país.
O país da classe média que não queria ser desse país. (Reprodução)

Por Marcel Farah

O governo Dilma consolidou o discurso que se iniciava no governo Lula de que agora (idos de 2013 e 14) o Brasil é um país de classe média.

Por trás do discurso escondia-se o fato, perigoso, da possibilidade de nos tornarmos um país da classe trabalhadora. Nada mais coerente, afinal éramos governados por um Partido dos Trabalhadores. Contudo, no governo o PT buscou conciliar interesses e evitar as brigas que deveria assumir.

O discurso estava em contradição com a vida concreta, pois ao considerar apenas o critério da renda, toda família com rendimentos acima de R$ 290,00 por pessoa tornava-se classe média. Isso colocava metade das populações de favelas nesta situação o que era nitidamente contraditório, chegando-se a afirmar que mais da metade da população brasileira era de classe média.

É fato que o consumo popular (de bens duráveis e serviços, ambos de baixo custo) aumentou consideravelmente nesta época, principalmente devido à valorização do salário mínimo e popularização do crédito, principais fatores de distribuição de renda à época. Políticas do tipo das que fazem falta hoje.

Mas a questão era trágica porque sem perceber, ou com intuitos conciliatórios, criou-se o mito de um país “medianizado”, quando a classe média aspirava majoritariamente ódio à classe trabalhadora e idolatria à elite.

Mas a desigualdade brasileira não está dentro da normalidade e as pessoas, em geral, não têm a noção disso.

Quando se diz que apenas 6 pessoas têm a riqueza de 50% mais pobre (103 milhões de pessoas), parece que entra por um ouvido e sai pelo outro. Principalmente se é uma pessoa de classe média. Ela continua pensando que com trabalho e dedicação é possível chegar lá!

A questão é que a desigualdade é resultado do sistema e não do desempenho individual. Mas isso é uma das coisas que a maioria da classe média não acredita.

Em "A elite do atraso" Jessé Souza divide a classe média em quatro segmentos. Segundo ele, 35% da classe média pode ser classificada como liberal (quem acredita na meritocracia), 30% como protofascita (destes que têm ódio de pobres/pretos/periferia), 20% como expressivista (é a turma da sustentabilidade) e 15% seria o nicho crítico ou reflexivo (identificados com a esquerda política).

Ou seja, o resultado da “medianização” almejada pelos governos petistas incentivou trabalhadores e trabalhadoras a se verem como classe média e negando-se a classe trabalhadora. O país da classe média que não queria ser desse país.

Hoje temos aumento da violência, do desemprego, da precarização do trabalho, fortalecimento do militarismo estatal (vide intervenção no Rio e seu apoio popular), criminalização da luta (vide comportamento do judiciário para com movimentos sociais), e um golpe institucional  ao qual tentam dar ares de normalidade: tudo com apoio da classe média.

Típico do Brasil, os 50% cujo principal objetivo é tornar-se 5%. Quer contradição melhor?

Marcel Farah
Educador Popular
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