27 Fev 2018 | domtotal.com

Viver sem redenção

É preciso aprender a conviver com o sofrimento e a viver apesar dele.

'Três anúncios para um crime' é um dos favoritos ao Oscar.
'Três anúncios para um crime' é um dos favoritos ao Oscar. (Copyright 2017 Twentieth Century Fox)

Por Gilmar Pereira

Diante de um mal, há uma sensação de desiquilíbrio. Algo precisa ser reparado e, para uma das noções de justiça, o causador deve receber uma pena proporcional àquilo que fez. Para outras, deve ser reabilitado a fim de que outra desarmonia não aconteça e as coisas voltem à normalidade. São perspectivas distintas da reparação de um mal.

A necessidade de reparar pode conduzir o foco da justiça nas causas do mal, no seu causador ou no bem a ser promovido que o compense. Com frequência nos pegamos em busca de culpados. Não falo aqui de crimes, necessariamente, mas daquilo que gera incômodo e se afigura como mal. Muitas vezes não há um culpado, apenas um conjunto de erros e uma sequência de desacertos. Ainda assim, personificar o mal e a culpa permite que a punição a ele infligida gere a sensação de compensação.  É o que acontecia no antigo Israel quando os pecados do povo eram “colocados” no bode que seria solto no deserto para Azazel – daí surgiu a expressão "bode expiatório".

Redenção, ou o ato de redimir, consiste na justificação, tem o sentido de libertar, resgatar. Em religião fala-se da remissão dos pecados ou redenção da culpa primeira. E a necessidade da redenção assola todos os que se sentem pesados por um mal, seja aquele que cometeu ou àquele que sofreu. Às vezes, esta nos vem na forma de compensação, como quando em um filme como "Bastardo Inglórios" somos recompensados pela personagem principal em sua vingança contra os nazistas. A cena na qual Hitler é fuzilado é catártica. A aniquilação do mal ou de sua representação traz a sensação de redenção, de justificação. O cinema é repleto desse efeito compensador. Mas o mesmo não ocorre em "Três anúncios para um crime", filme candidato ao Oscar. O longa de Martin McDonagh não tem redenção.

Mildred (Frances McDormand) sofre a dor do assassinato e estupro de sua filha. Sem respostas sobre o autor do crime, a mãe decide dar visibilidade à sua indignação em três outdoors próximos de sua casa: Violada enquanto morria. E ainda nenhuma prisão? Porque, chefe Willoughby? (Raped while dying. And still no arrests? How come,Chief Willoughby?). Recebendo a culpa pela impunidade do crime está o chefe de polícia Willoughby (Woody Harrelson), que não encontrou nenhuma pista sobre o criminoso e se vê com um câncer em estágio avançado. Um de seus policiais, o problemático Jason Dixon (Sam Rockwell), tenta justificar seu chefe e intimidar Mildred.

Acompanhando a dor da mãe, o espectador espera ve-la livre da dor e que o culpado do crime seja pego. Olhando para Willoughby, deseja que ele seja justificado de seu fracasso em encontrar o criminoso e livre da culpa da impunidade. Voltando-se para Dixon, anseia por sua restauração. Contudo, não se trata de um filme de superação, de vitórias, e sim da falta, da culpa, da perda, do erro. Não há redenção no filme senão a administração dos próprios limites e idiossincrasias. Nenhum personagem do filme é plano, não são divididos em bons e maus, mas se compõem de uma complexidade na qual se conjugam mazelas e virtudes, onde suas belezas e feiúras são expostas, comunicando a dura e crua mensagem: a gente não é do jeito que quer, a gente é do jeito que dá conta.

Apesar de todos os embates, não há inimigos no filme e todos são vítimas e algozes uns dos outros. A dor que cada um sente transborda sobre o outro sob a forma de espinho, enquanto, em outros momentos, podem ser surpreendidos em altivez. Talvez a cena mais trágica do filme seja aquela onde se vislumbra a maior expressão de amor ou graça, quando na fraqueza ainda que se quer levantar o outro, quando alguém se dá por vencido e não quer que outros se percam. Mesmo assim, a dor é o que preenche o filme, um convite a adultez. É preciso aprender a conviver com o sofrimento e a viver apesar dele. Como na cena final em que Mildred e Dixon partem em viagem, não sabemos o que faremos lá na frente, mas o importante é seguir em frente.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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