08 Mar 2018 | domtotal.com

Intervenção equivocada

A intervenção federal nos morros pode até remediar, mas não vai resolver o problema da violência.

Vale perguntar para que uma intervenção nos morros se o sindicato do crime lidera a bandidagem de dentro da cadeia.
Vale perguntar para que uma intervenção nos morros se o sindicato do crime lidera a bandidagem de dentro da cadeia. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

O Rio de Janeiro vem sendo saqueado há décadas por seus governantes. Graças à Operação Lava-Jato, alguns deles estão presos. Por outro lado, o estado quase nunca se preocupou com as comunidades carentes. Portanto, a intervenção federal nos morros pode até remediar, mas não vai resolver o problema da violência.

O tráfico de drogas é internacional e obedece à lógica do mercado. A oferta existe onde há procura. O Brasil é o corredor de escoamento dos cartéis sul-americanos. Além disso, o país é campeão no consumo de crack e o segundo colocado, em cocaína. Há quem acredite que a liberarão do uso de drogas seria a solução. Mas temos que levar em conta que os traficantes é que entendem do ramo e certamente continuarão no negócio.

Outra coisa a ser levada em conta é que, na maioria dos casos, apenas os pequenos delitos fogem ao controle das grandes quadrilhas. O tráfico de drogas e de armas, de mulheres e de órgãos humanos, bem como o roubo de cargas e assaltos a bancos geralmente são comandados por facções muito bem organizadas.

Convenhamos que se o dinheiro das drogas ficasse nas comunidades, as ruas das favelas seriam ladrilhadas com pedrinhas de brilhantes. O que todo mundo faz de conta não saber é que os maiorais do tráfico não moram nos morros, mas em condomínios de luxo. Para complicar as coisas, surgiram as milícias comandadas por políticos e policiais corruptos – como nos mostra o filme “Tropa de Elite – 2”.

A omissão do estado

As grandes favelas são consequência de um sistema econômico excludente, apoiado pelos políticos desde a proclamação da República. Alguns anos antes, a abolição da escravatura não dera condições de sobrevivência digna à maioria dos ex-escravos. Sem lugar no mercado de trabalho, a maioria se viu obrigada a viver de biscates e a permanecer na miséria, muitas vezes explorada pelos antigos senhores.

A favelização dos morros cariocas ganhou força a partir de 1897. Com a derrota de Canudos, na Bahia, soldados do exército se concentraram na capital federal em busca do soldo prometido. Sem apoio do estado, foram morar no Morro da Providência, onde construíram barracos inspirados nos modelos do Morro da Favela – nome oriundo da árvore faveleiro, cujas folhas eram usadas para cobrir as choupanas.

Na década de 1910, as obras de saneamento do prefeito Pereira Passos empurraram os pobres para a Zona Norte, ampliando os bolsões de miséria. Foi mais ou menos o que ocorreria décadas depois, quando construíram a Cidade de Deus. Ao longo dos anos, as favelas cresceram sem a atenção das autoridades, tornando-se ideais para acoitar bandidos.

O primeiro grupo do chamado “crime organizado” surgiu nos presídios da Ilha Grande. Em contato com os presos políticos do regime militar, detentos comuns aprenderam técnicas de guerrilha e organização política. Com o fim do sistema carcerário da Ilha, seus internos foram transferidos para as prisões do continente, levando consigo o Comando Vermelho (CV). Este não demorou a subir os morros cariocas.

A contravenção dominou as comunidades até a prisão dos bicheiros mais tradicionalistas, nos anos 1980. Muitos deles eram contra as drogas. A partir daí, o tráfico ampliou suas áreas de domínio. Dissidências do CV formaram outras facções, que acabaram servindo de inspiração para o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo. 

Estratégia eleitoreira

Vale perguntar para que uma intervenção nos morros se o sindicato do crime lidera a bandidagem de dentro da cadeia. Sem controlar o próprio território, não tem sentido o governo arriscar a vida de populações carentes, que tanto já sofrem com a guerra do tráfico e a corrupção policial.

Se o envio de tropas federais resolvesse a questão, isso teria ocorrido antes da Copa de 2014, quando foram criadas as Unidades Pacificadoras. Ocupar militarmente é fácil! O difícil é manter o moral da tropa e equipar os bolsões de miséria com moradias dignas, saneamento básico, hospitais, creches, escolas profissionalizantes e centros recreativos. Quando morre um traficante, tem uma fila de jovens desocupados para ocupar seu lugar.

E se a ação federal resultar num massacre de inocentes? E se a reação à ocupação originar uma nova Canudos? E se o exército perder a guerra, já que não é treinado para esse tipo de trabalho? E se os marginais fugirem para outras cidades? Para funcionar, a intervenção deveria começar pela deposição do governo e da Assembleia Legislativa – por incompetência e/ou corrupção.

A ideia intervencionista certamente foi inspirada no discurso do deputado federal Jair Bolsonaro. Como todo radical, ele propõe soluções drásticas e demagógicas para os problemas nacionais. Com o seu crescimento nas pesquisas, o presidente Temer provavelmente enxergou a oportunidade de ganhar pontos junto à opinião pública. Além disso, desviou o foco da Lava-Jato e criou o Ministério da Segurança Pública, que deverá manter a PF sob rígido controle.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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