14 Mar 2018 | domtotal.com

Conflito

Pior do que não poder descansar é não se permitir o descanso.

No sétimo dia descansou o Senhor do Tempo.
No sétimo dia descansou o Senhor do Tempo. (Henry Perks/ Unsplash)

Por Gilmar Pereira

“Descansar!” – grita o comandante à sua tropa. Como pode alguém descansar à base do grito? Talvez a tensão seja tanta que, ao brado de descanso, todos se sintam livres e aliviados. Mas disso não posso falar porque não servi no Exército. Ou seria ao Exército? De qualquer forma, não servi “a” nem “no”, mas vivi servindo.

Aprendi muito na Igreja – e não da Igreja – que “quem não vive para servir, não serve para viver”.  Acho drástico e errado, mas me submeti a essa lógica de não poder ser peso para nada, nem ninguém. Consequência: não sabia descansar. Tinha inveja da imagem cantada por Renato Russo na música “Vento no litoral”, na qual era descrito o desejo de descansar à tarde, chegando à praia e vendo se o vento estaria forte, subindo nas pedras, deixando a onda acertar a si. Cenário bucólico e ritmo lento pareciam alentadores, mas não para mim.

Pior do que não poder descansar é não se permitir o descanso. A gente se entope de afazeres mesmo não os tendo como obrigação. Alguns o fazem para fugir do tédio e da angústia; outros, para se sentirem importantes; ou ainda, e talvez o que justifique tudo isso, fugir de si. É uma armadilha estranha essa na qual nos prendemos, criar um tumulto ou conflito externo - ao qual sempre se está acorrendo para apaziguar – enquanto camufla-se o conflito interno.

Há outros momentos em que se pode experimentar o contrário, onde tudo ao redor é tensão, mas internamente se experimenta a paz. Nessas situações, o equilíbrio de um salva os demais. Servem à paz os que servem na paz. Trata-se de um movimento transbordante no qual a harmonia interna se comporta como um diapasão para afinar as relações externas. Entretanto, tenha cuidado! Não entenda que a paz é ausência de conflitos. Ela consiste, algumas vezes, no paradoxo de não entrar em conflito estando em meio a ele.

Tudo isso talvez dependa de equilíbrio na vida, o que talvez seja complicado, já que se pode cair na tensão ao se tentar equilibrar equilibrar. A melhor imagem, pois, é a de quem tempera uma comida, vai dosando a temperatura e os elementos que se achegam até que o prato esteja no ponto. Algumas vezes servimos, outras deixamo-nos ser servidos; amamos e somos amados; trabalhamos e descansamo; ora encontramos, ora perdemos. Há um tempo para cada coisa e aprender mesmo isso é questão de tempo. Aliás, no sétimo dia descansou o Senhor do Tempo.

Boca de Ouro

Ao longo de nossa vida aderimos a diversas ideias e valores que, com frequência, conflitam entre si. Entretanto, vivemos de modo tranquilo até que dois ou mais pedem prioridade ao mesmo tempo, urgindo opção. São os mesmos que interferem no modo como experimentamos o mundo e caracterizam aquilo que pode ser chamado de "nossa verdade".  Cada um lê a realidade por um prisma, mas a verdade mesma, a totalidade do real, esta no escapa. São os fragmentos do real que nos ajudam a compor um mosaico que é preciso ser visto em cada parte e olhado como um todo para ser compreendido. Nisso se inscreve o conceito atual da pós-verdade, que questiona sobre o verdadeiro na pluralidade de narrativas. A verdade mesma, talvez esteja no dito ou no não-dito ou no interdito ou em tudo isso. A peça Boca de Ouro fala disso.

Boca de Ouro (Malvino Salvador) é um lendário bicheiro carioca, figura temida e megalomaníaca, que tem esse apelido porque trocou todos os dentes por uma dentadura de ouro. Quando Boca é assassinado, seu passado é vasculhado pelo repórter Caveirinha (Chico Carvalho), que vai até acasa da ex-amante Guigui (Lavínia Pannunzio). Lá, ouve a versão da ex-amante, que desanca o bicheiro. Ao saber de seu assassinato, Guigui se arrepende e exalta Boca como uma figura amorosa. Já no terceiro ato, Guigui volta a desancar o bicheiro, pois teme ser abandonada pelo marido Agenor (Leonardo Ventura). Nas três versões relatadas, surge o casal Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Claudio Fontana), que tem relação direta com o assassinato de Boca de Ouro.

As diferentes versões de Guigui para a morte de Boca de Ouro levaram o diretor Gabriel Viellela a fazer conexões com uma pesquisa recente da universidade de Harvard, sobre um fenômeno contemporâneo chamado “pós-verdade”. Villela explica: “É um produto da modernidade tecnológica: você inventa uma história, realinha ideias, publica, arruma vários seguidores e isso se amplia, viraliza na internet e ninguém mais sabe sobre o que se está falando. Somos todos vítimas disso. (...) A Guigui é insuperável – com três expedientes emocionais e psíquicos, ela conta três vezes a mesma história, embaralhando com maestria para que tudo seja incrivelmente verdadeiro”.

17 de março, sábado às 21h00; 18 de março, domingo às 19h00
Palacio das Artes - Av Afonso Pena, 1537, Belo Horizonte-Minas Gerais

Informações e ingressos no site Ingresso Rápido.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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