09 Mar 2018 | domtotal.com

Quem não se movimenta, não sente as cadeias que a prende

O movimento feminista socialista entende que a opressão às mulheres é cotidiana e ocorre em todas as classes sociais.

Sobre o 8 de março é melhor chamá-lo de dia internacional da luta das mulheres, pois a resistência das mulheres enfrenta a opressão, é luta em si, necessária para superar o machismo.
Sobre o 8 de março é melhor chamá-lo de dia internacional da luta das mulheres, pois a resistência das mulheres enfrenta a opressão, é luta em si, necessária para superar o machismo. (Reprodução)

Por Marcel Farah

Neste 8 de março, dia internacional da mulher, cerca de 800 mulheres de diversos movimentos sociais ocuparam o parque de impressão do jornal O Globo em Duque de Caxias no Rio de Janeiro.

A ação teve início às 5h30 da manhã e faz parte de um conjunto de mobilizações da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, cujo lema é o título deste artigo.

O ato busca denunciar o apoio e a participação direta do grupo empresarial Globo no golpe que derrubou a presidenta Dilma e às medidas políticas que vêm sendo implementadas pelo governo federal desde então, como o congelamento dos gastos sociais, a reforma trabalhista e a reforma da previdência.

O ato destacou os interesses da Globo na reforma da previdência evidenciando sua participação em grupos de previdência privada, como a Mapfre Seguros, que lucrariam com a reforma. E também cutucou na ferida com o fato do parque de impressão do jornal O Globo ter sido financiado pelo BNDES com cerca de R$217 milhões em valores atualizados, sendo que hoje opera com 20% de sua capacidade.

Além disso fizeram a crítica à intervenção militar no Rio de Janeiro. Paras as mulheres do ato, segurança se constrói com investimento em políticas públicas e não com intervenção.

Além deste, registram-se atos em Extremoz-RN de ocupação de fábrica de roupas da Riachuelo, condenada por submeter costureiras a trabalho análogo à escravidão, e em Curitiba contra a violência e pela reforma agrária.

O movimento feminista socialista entende que a opressão às mulheres é cotidiana e ocorre em todas as classes sociais. Mas também é um instrumento para potencializar a opressão de classe.  Afinal, como dizem, não há capitalismo sem machismo. O trabalho mais explorado na história do capital é o trabalho feminino, até hoje. E o capitalismo aproveita datas simbólicas para ganhar mercado. Assim amplia as vendas, o lucro e os mecanismos de exploração da classe trabalhadora principalmente das mulheres.

Mas a exploração extrapola o mercado, contaminando o Estado e as políticas públicas.  Isso ficou bem explícito na história de Jéssica Monteiro, a jovem de 24 anos que foi presa provisoriamente sob acusação de tráfico e pariu durante o período em que estava presa tendo que cuidar e amamentar seu recém nascido em uma sela em condições precárias.

Jéssica mora em um barraco de madeira em uma ocupação em São Paulo, foi presa e teve diversos direitos seus e de seu filho, desrespeitados pela polícia e pelo judiciário até tornar-se conhecido seu caso. Como ela, existem cerca de 4 mil detentas, ou seja, é um caso de desrespeito em massa.

Jéssica conquistou o direito a prisão domiciliar após um Habeas Corpus e indiretamente foi responsável pelo reconhecimento do direito de cumprir pena domiciliar para mulheres grávidas ou com filhos até 12 anos que estejam presas preventivamente, pelo STF no dia 20 de fevereiro de 2018.

O tratamento que o Estado dá aos pobres é diferente do oferecido aos ricos, isso fica ainda pior quanto a mulheres pobres, que dirá negras.

No mesmo sentido, nunca é demais lembrar que o fato de Dilma ser mulher fez com que o golpe de 2016 representasse, não só um ataque à democracia, mas também às mulheres, afinal a injustiça contra as mulheres é corriqueira em uma sociedade machista como a nossa.

Sobre o 8 de março é melhor chamá-lo de dia internacional da luta das mulheres, pois a resistência das mulheres enfrenta a opressão, é luta em si, necessária para superar o machismo.

Viva as mulheres e sua luta cotidiana contra as cadeias que nos prendem.

Marcel Farah
Educador Popular
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