15 Mar 2018 | domtotal.com

A polêmica em torno das drogas

A questão das drogas é polêmica, pois envolve saúde pública, economia, segurança e liberdade de escolha.

O tráfico obedece às leis de mercado, de oferta e procura.
O tráfico obedece às leis de mercado, de oferta e procura. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Já fui a favor da liberação das drogas, mas hoje, francamente, ando repensando minha posição. Na verdade, tendo a ser contra. Em caso de legalização, os próprios traficantes continuariam no ramo, pois são eles que entendem do negócio. Agora, para reforçar essa tese, leio a notícia de que a liberação da maconha no Uruguai não deu muito certo.

Ao contrário do esperado, a criminalidade tem aumentado desde a legalização da marijuana pelo ex-presidente José Mujica. Segundo reportagem do G1, o diretor Nacional de Polícia do Uruguai, Mario Layera, disse que a legalização, aprovada em 2013, não resultou na queda do tráfico.

O número de assassinatos ligados ao submundo das drogas aumentou no Uruguai. “No ano passado, tivemos os níveis históricos mais altos de confisco (de drogas) no país proveniente de outra região. Por isso, entendemos que o tráfico não se ressentiu de maneira notável" (com a liberação da maconha), afirmou Layera em entrevista à rádio El Espectador.
 

A Brigada de Narcóticos uruguaia divulgou que a droga mais confiscada em 2016 foi justamente a marijuana, chegando a 4,305 toneladas até 18 de dezembro – quase o dobro de 2015, com 2,52 toneladas. Layera afirma que o aumento da taxa criminal medida de 2005 em diante, foi crescendo com base nos fenômenos de oferta e consumo de drogas.

Nos últimos anos, a polícia uruguaia constatou o aumento de assassinatos, principalmente de jovens. Em muitos casos, esses crimes estavam ligados a ajustes de contas entre traficantes ou pessoas ligadas ao tráfico. Layera também alertou para o fato de que há juízes e procuradores ameaçados de morte devido às novas estratégias de combate ao crime organizado.

Conscientizar é preciso

A questão das drogas é polêmica, pois envolve saúde pública, economia, segurança e liberdade de escolha. O tráfico é uma atividade altamente lucrativa e se constitui numa rede multinacional, que vai da produção ao consumo. A verdade é que cada cigarro de maconha, cada pedra de crack ou papelote de cocaína que se usa alimenta o crime organizado.

Em suma, o tráfico obedece às leis de mercado, de oferta e procura. Devido à quantidade de dinheiro que movimentam, as organizações criminosas dispõem de recursos suficientes para subornar ou ameaçar autoridades em vários países. O lema é mais ou menos o mesmo adotado por Pablo Escobar no seu apogeu: “plata ou plumbo”.

Recordista no consumo de crack e segundo colocado no ranking da cocaína, o Brasil é talvez o maior corredor de escoamento de drogas do mundo, quase toda ela oriunda da Bolívia e da Colômbia. Na região atuam as FARCs, organizações paramilitares de esquerda ligadas aos cartéis e ao Forum de São Paulo. Talvez isso explique o aumento no consumo de drogas em território brasileiro, nos últimos dez ou 15 anos.

A melhor maneira de combater o tráfico seria fechando as fronteiras – tarefa impossível, sobretudo em momentos de crise. E enquanto o governo federal insiste na intervenção no Rio de Janeiro, quase nada tem sido feito para conscientizar crianças e jovens sobre o perigo das drogas. Pelo contrário, vivemos numa sociedade permissiva, na qual o vício é estimulado desde cedo, a começar pelo álcool.

Se a batalha contra o tabaco obteve bons resultados, diminuindo o consumo a partir de campanhas de conscientização, por que não fazer o mesmo com outras drogas? Poderiam começar colando rótulos nas garrafas de bebidas alcoólicas, alertando para os riscos de doenças provocadas pelo uso abusivo. O dinheiro que fosse gasto hoje com esse tipo de campanha certamente seria economizado amanhã, no orçamento da saúde pública.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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