16 Mar 2018 | domtotal.com

O assassinato de Marielle Franco e os ensaios do golpe


Este artigo poderia se chamar, novamente, é a economia, estúpido! Mas está manchado pelo sangue e pela luta de mais uma lutadora do povo que tombou. Viva Marielle, agora e sempre.

Da favela da Maré para a Câmara Municipal, Marielle, defensora dos direitos humanos, fizera recente denúncia sobre a violência policial.
Da favela da Maré para a Câmara Municipal, Marielle, defensora dos direitos humanos, fizera recente denúncia sobre a violência policial. (Mídia Ninja)

Por Marcel Farah

No capitalismo a economia determina de forma predominante os fenômenos sociais.

Já sei, parece uma reprodução simplificada do raciocínio marxista, mas é mesmo. E também é um fato advindo da experiência.
A corrupção, por mais que seja enfrentada com leis, com fiscalização, com inteligência (e isso tem pouco), com delações, dá um jeito de continuar. Afinal enquanto for um negócio lucrativo não tem porque não existir.

A Inglaterra, com a Scotland Yard (tida como polícia mais eficiente do mundo) tem corrupção pra caramba.

Vejam, sei que a Inglaterra na “Transparência Internacional” está entre os 15 países menos corruptos do mundo. Contudo, uma rápida pesquisa mostra que a corrupção se manifesta de forma diferente a depender do local onde ocorre. Nos países pobres, com propinas e desvios orçamentários, nos países ricos, com sistemas bancários desenvolvidos que dão guarida para traficantes internacionais de armas, sonegadores multimilionários e lavadores de dinheiro.

Na lista da Rede de Justiça Fiscal, que utiliza critérios diferentes de transparência, o Reino Unido está entre os países com piores regimes sigilosos de investimento, leia-se paraíso fiscal , juntamente com Cingapura, Alemanha, Luxemburgo (onde o Aécio teria uma conta, ou seria Liechtenstein?) e Suíça (onde o Eduardo Cunha tem uma conta).

Portanto, há também uma divisão internacional do trabalho na industria da corrupção. O problema é que só o trabalho dos países pobres é tido como corrupção, o trabalho de corrupção dos países ricos é visto como “modelo de negócios”.

O Brasil sofre desse mal. Só se enxerga corrupção aqui. Como se fosse produto exclusivamente nacional, e como se a corrupção daqui não dependesse do sistema capitalista internacional para sobreviver e para ser um negócio lucrativo. Ao estilo complexo de vira latas.
O tráfico é outro destes fenômenos capitalistas, que não se combate por meio de políticas, segurança pública, leis, prisões etc, enquanto for lucrativo. Somente sua asfixia por meios econômicos poderia superá-lo. Para abolir o tráfico devemos seguir o conselho de um especialista, o Nem da Rocinha (famoso traficante que tornou o morro um lugar pacífico em que a justiça era gerida pelo tráfico), segundo Nem, tem que legalizar as drogas, todas, sem moralismo.

Nem, deu entrevista recente ao jornal El País , na qual se pode entender melhor suas ideias sobre violência, políticas públicas, corrupção nas organizações militares (inclusive exército) e a intervenção no Rio. Em suma, quanto mais seguro for o morro, mais clientes o tráfico atrai e mais lucros obterá. Simples, não é?

Quanto à atuação da polícia entram os dois elementos, o tráfico e a corrupção. A polícia não elimina o tráfico pois é mais lucrativo viver com ele. Em territórios sem a presença do estado os milicianos (máfias de policiais) arrecadam tributos dos moradores a troco de “paz”. O filme “Tropa de Elite” mostra essa arquitetura didaticamente, cobram pelo gás, pela TV a cabo pirata (a gatonet), pela segurança do comércio da esquina etc. É um negócio lucrativo, que sustenta policiais e traficantes em conjunto, todos organizados pela produção do lucro.

Mas esses fenômenos não são nada fáceis de se explicar em uma sociedade que produz bolsonaros e tem como meio de comunicação uma rede Globo de televisão. Pois para fascistas e direitistas os lugares comuns explicam a realidade e os direitos humanos só devem valer para os “humanos direitos”, não para todos.

Por trás disso há o preconceito de classe, para o qual os desclassificados, ou não “direitos”, são da classe trabalhadora.

Por trás disso há o escravismo, permitido e incentivado em 400 de nossos 500 anos história recente, que construiu a submissão de negros e negras.

Por trás disso há uma cultura autoritária, na qual a democracia conseguiu eleger apenas 8 presidentes nos últimos 88 anos.

Por trás disso há a formação da classe trabalhadora brasileira, dos tempos coloniais até os atuais, fora dos centros de decisão política de nosso país.

A colonialidade ainda nos domina e é por isso que se classifica a corrupção como maior no Brasil – colônia – do que na Inglaterra – metrópole.

Quantas das nossas ainda precisarão morrer?

Também não vai ser fácil explicar o assassinato de Marielle Franco como algo que vai além da “violência no Rio de Janeiro”, chavão a explicar a intervenção “temerária”. Marielle era mulher negra, vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, quinta mais votada em 2016, e foi morta a tiros dia 14 de março de 2018, na zona central do Rio.

Da favela da Maré para a Câmara Municipal, Marielle, defensora dos direitos humanos, fizera recente denúncia sobre a violência policial em Acari, como vinha fazendo em toda sua militância, e foi assassinada, como em uma execução. Estaria a polícia envolvida?

Vai ser difícil explicar que esse assassinato tem a ver com a falácia da intervenção militar no Rio, tem a ver com o fato de que a legalização das drogas é solução melhor que a intervenção.

Vai ser difícil explicar que o crime é organizado pela polícia e que leis mais duras ou intervenções não dão medo nos criminosos, apenas encarecem o sistema de segurança e carcerário.

Vai ser difícil explicar, inclusive porque a Globo vai dizer o contrário, que esta e outras violências são ensaios dos golpistas para aprofundamento do estado de exceção. E que isso é o que nos cabe na divisão internacional da hipocrisia.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas