22 Mar 2018 | domtotal.com

A Savassi do Pacífico

As novas gerações talvez não saibam, mas Pacífico foi um dos precursores do gênero musical inventado por João Gilberto.

Liderado por Pacífico Mascarenhas em meados da década de 1960, o conjunto Sambacana lançou vários talentos, entre eles Wagner Tiso e Milton Nascimento.
Liderado por Pacífico Mascarenhas em meados da década de 1960, o conjunto Sambacana lançou vários talentos, entre eles Wagner Tiso e Milton Nascimento. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

“Por onde quer que eu passe, acabo sempre é na Savassi”. O verso de Pacífico Mascarenhas é uma declaração de amor à região onde ele nasceu e cresceu. A frase musical está no monumento em homenagem à Turma da Savassi – que só depende de autorização da PBH para ser colocado na Praça Diogo de Vasconcelos.

Pacífico integrou a segunda geração da famosa turma, que se reunia na porta da Padaria Confeitaria Savassi (hoje Vivo) e que praticamente dominou o bairro Funcionários, entre 1940 e 1960. Uma galera briguenta e festeira, que ajudou a firmar o nome da padaria no inconsciente de Belo Horizonte, o que resultou na criação do bairro Savassi, em 2006, na gestão do prefeito Célio de Castro.

Fiquei honrado quando Pacífico me convidou para contar a história da patota e aproveitei para retroceder ao tempo dos bondes e dos cinemas de rua, numa BH bucólica e cordial. O livro “A Turma da Savassi” é uma publicação da Quixote + DO Editoras Associadas e traz um CD com algumas de suas canções por diversos intérpretes.

Eu era criança quando vi o Pacífico pela primeira vez na marcenaria do meu pai, que funcionava na nossa casa, no bairro Caiçara. Seu Mário era um craque no torno. O ilustre cliente o havia contratado para reformar alguns bancos e rodas de madeira de antigos carros de sua coleção.  Pena meu pai não ter sobrevivido para ver o livro pronto!

Pioneirismo musical

Adolescente, folheando um exemplar da antiga revista Manchete, deparei-me com uma foto do Pacífico com violão em punho. A reportagem falava de suas músicas, feitas no estilo da Bossa Nova. As novas gerações talvez não saibam, mas ele foi um dos precursores do gênero musical inventado por João Gilberto. Ao conhecer o cantor baiano em Diamantina, em 1956, aprendeu a batida diferente, da qual nunca se desgrudou.

Em 1958, com apenas 23 anos, Pacífico lançou o primeiro LP independente gravado no país, intitulado “Um passeio musical”. Quando Antônio Adolfo fez o mesmo no Rio, anos depois, a crítica “especializada” simplesmente ignorou o pioneirismo do mineiro, que também havia criado o conjunto Sambacana.

O grupo praticamente lançou artistas como Milton Nascimento, Wagner Tiso e Joyce Moreno no mundo fonográfico. O disco “Muito pra frente”, produzido por Pacífico e lançado em 1965 pelo selo Odeon, está no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=zgd0AAWI6ig&t=389s) e era bem moderno para os padrões musicais daquela época.

Pra quem não sabe, Pacífico tem mais de 100 composições gravadas por intérpretes como Claudette Soares, Alberto Chimelli Trio, Luiz Eça Trio, Nara Leão, Eumir Deodato, Miéle, Tito Madi, Roberto Menescal e mais de cinquenta cantores de Minas – entre eles Gilberto Mascarenhas, Gilberto Santana, Renato Motha, Affonsinho, Paula Santoro, Marilton Borges, Grupo Alarme Falso, Suzana & Bob Tostes. Quatro músicas suas integram o song book da Bossa Nova, organizado pelo saudoso Almir Chediak.

O compositor que mais cantou BH e a região da Savassi até foi parar no Guinness World Records, com um CD contendo 60 faixas. Filho do industrial têxtil Alexandre Mascarenhas, Pacífico também se notabilizou como colecionador de carros antigos. Esta e muitas outras histórias estão no livro, que vou autografar neste sábado (24/3), a partir das 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274). 

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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