29 Mar 2018 | domtotal.com

O Brasil desce a ladeira

Desde o golpe republicano que derrubou Dom Pedro II sem a participação da sociedade, o Brasil oscila entre o sonho ufanista e o pesadelo da realidade.

Simplesmente ignoramos aquilo que realmente deveria ser levado em conta.
Simplesmente ignoramos aquilo que realmente deveria ser levado em conta. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Houve um tempo em que os brasileiros se ufanavam de ser brasileiros. O carnaval carioca era o maior espetáculo da Terra. Santos Dumont era mesmo o pai da aviação. Tínhamos os melhores futebolistas do mundo, a começar pelo rei Pelé! A bossa nova tocava no rádio e influenciava até mesmo o jazz americano. Itaipu era a maior hidrelétrica do planeta. Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna estavam entre os maiorais da Fórmula 1.

Contudo, em meio a tantas coisas menores que inflavam o ego nacional, simplesmente ignoramos aquilo que realmente deveria ser levado em conta. Esquecemos, por exemplo, da educação das nossas crianças. Deixamos nos levar pela promessa de desenvolvimento acelerado e acreditamos nos ministros da Fazenda que prometiam engordar o bolo para depois dividi-lo.

Desde o golpe republicano que derrubou Dom Pedro II sem a participação da sociedade, o Brasil oscila entre o sonho ufanista e o pesadelo da realidade. Longe de nos representar, a maioria dos políticos espelha o que temos de pior entre os eleitores. São ignorantes, oportunistas e trapaceiros, preocupados apenas consigo mesmos.

O Estado Novo de Vargas criou empresas e leis paternalistas, visando a agradar tanto oligarcas quanto trabalhadores. Cognominado “pai dos pobres”, o ditador foi também a mãe dos ricos. Dez anos após sua morte, implantou-se no país o regime militar, cujos maiores pecados foram a estatização da economia e a sucatização do ensino público. Surgida nos estertores da ditadura, a Nova República seguiria o mesmo caminho. O estado engordou além da conta e o ensino piorou a olhos vistos.

Déficit de conhecimento

Hoje nós temos um estado paquidérmico, completamente falido, sustentado por uma sociedade dividida e com baixa qualidade escolar. Segundo recente pesquisa do Banco Mundial, temos um déficit de leitura de 250 anos, em comparação com o Primeiro Mundo. Em matemática, estamos 75 anos atrás dos países europeus. Isso comprova o que organismos internacionais já vinham apontando: nosso sistema de ensino é um dos piores do planeta.

Agora nos vemos em segundo lugar no ranking Ipsos Mori de percepção errada da realidade – atrás apenas da África do Sul. A partir de perguntas simples, a pesquisa desse instituto demonstrou o quanto somos desinformados sobre nós mesmos. Quantos por cento das garotas de 15 a 19 anos dão à luz no país? O correto seria 6,7%, mas a média das respostas apostou em 48%. Essa foi uma das questões examinadas.

Mesmo em temas mais amplos, como religião, por exemplo, as respostas passaram longe da realidade: a maioria dos entrevistados estima que 80% dos brasileiros declara acreditar em Deus, mas o índice correto é 98%. No quesito internet, segundo reportagem da revista Exame, os entrevistados responderam que 85% dos brasileiros têm smartphone, quando na verdade são 38%. A maioria disse que 83% têm perfil no Facebook, mas o percentual correto é 47%.

O próprio ENEM tem demonstrado a baixa qualidade do ensino no país. Sem uma ampla reforma no setor educacional, sobretudo no ensino básico, continuaremos com os altos índices de analfabetismo funcional que se refletem no dia a dia. Vale perguntar a quem interessa tanta ignorância. A resposta é simples: aos próprios governantes, que usam o povo como massa de manobra para alcançar seus sórdidos objetivos.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 43 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Atual Editora), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (Edições SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração Editorial), finalista do Prêmio da APCA em 2015.
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