27 Mar 2018 | domtotal.com

A caverna azul

Desconstruir ideias implica em desmontar o próprio mundo e a própria vida.

Hoje não importa a verdade das coisas, mas as impressões que cada qual tem da realidade.
Hoje não importa a verdade das coisas, mas as impressões que cada qual tem da realidade. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Quem teve a oportunidade de estudar Filosofia, provavelmente, já leu ou ouviu falar da alegoria da caverna de Platão. A história se encontra no livro “A Republica” e tem como personagem central a figura de Sócrates que é quem, no plano narrativo da obra, lhe descreve. Embora antiga, a alegoria é muito pertinente ao momento atual.

Nela são descritos “homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna” e que estão lá “desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe (...) cortado por um pequeno muro”. Ao longo dele passam “homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro (...). Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam”. O eco da fala dos carregadores ressoa na parede da caverna de modo que pareça vir das sombras projetadas.

Por fim, Sócrates arremata: “os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados. (...) Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente”. Por fim, esse homem sobe à abertura da caverna e é cegado pela luz até se acostumar a ela e, com o tempo, consegue ver as coisas e mesmo olhar para o sol. Mas a historia não acaba por aí. A narrativa manda o homem de volta para a caverna e, dessa vez, a escuridão o cega e já não consegue distinguir as sombras. Para seus antigos companheiros, ele teria enlouquecido; a verdade é o que está diante deles. Como descreve a historia, se pudessem, matariam tal pessoa que tentasse dissuadi-los do que creem.

O trágico fim da alegoria é semelhante ao que se assiste hoje, quando não importa a verdade das coisas, mas as impressões que cada qual tem da realidade. O que se apreende do real, as sombras, vale mais do que a realidade por um simples fato: toda a vida da pessoa está alicerçada no mundo que lhe foi construído diante dos olhos. Desconstruir ideias implica em desmontar o próprio mundo e a própria vida. Se fôssemos imaginar tal pessoa diante de nós, talvez pudéssemos ouvi-la questionar entre prantos: “Você quer dizer que tudo o que acreditei era uma mentira? Você está dizendo que minha vida é uma mentira?” E mesmo que não se revoltasse, como ela viveria? Alguém estaria habilitado a  lhe reconstruir outro mundo?

Para não desmoronarem, as pessoas buscam aqueles que possam referendar suas ilusões. Os opostos podem até se atrair conforme o conceito da Física, mas, na dinâmica social, os iguais se juntam. E quando mesmo tal referência não dá conta de sustentar certa visão de mundo, dá-se início ao processo de racionalização, uma espécie de mecanismo de fuga da realidade com aparência de racionalidade. Quando um sistema falha, cria-se hipóteses ad hoc para sustentá-lo. Algo assim é descrito pelos críticos da astrologia. Na falha do horóscopo, o problema não está no sistema de signos, mas na desconsideração do ascendente. Se ainda assim estiver errado, há de se buscar respostas na Lua, em Vênus, em Marte ou em qualquer outra influencia astral. Dificilmente quem gosta desse sistema de sentido vai admitir que ele não tenha validade. E se você não acredita em horóscopo, provavelmente é de touro - porque taurinos são teimosos - ou de virgem - que são muito críticos.

A caverna hoje pode ser uma tela digital. Mas seus prisioneiros olham a realidade desde um aplicativo de ícone azul, como o Twitter ou Facebook, mas pode ser róseo como atualmente é o Instagram. Ali se contemplam as sombras do real e há quem se relacione com as imagens veiculadas por essas redes como se fossem realmente a verdade total. Por tais imagens, sejam elas discursivas ou mesmo figurativas, parâmetros são criados e pensamentos sobre o mundo são fundamentados. E por crerem no mundo que lhes foi apresentado, digladiam-se para defender o imaginário no qual esta sustentada sua vida. Contudo, quando se fala disso, cada qual entende como algo que precisa ser ouvido pelo lado oposto, não por si.

“Pessoas de bem” costumam buscar em causas políticas razões justificáveis para destilar o mal que há em si. Elas se veem boas demais e querem crer nisso. Encontram no imaginário construído nas redes as sombras de um inimigo e aí podem dar vazão à própria perversidade e ainda manter a ideia de sua bondade. De outra parte, há um grupo dado ao “lacre” que vê em todo mundo uma insuficiência de luz. Creem-se muito sábios e iluminados e precisam dar uma lição que oprima o oprossor, mas não podem admitir que sentem gosto também em oprimir. Ambos podem ser lados de uma mesma moeda que projeta nos outros suas ilusões porque não dão conta de encarar a luz da verdade. A verdade? Estamos todos na caverna.

TREM DA VALE JAZZ | CAFETERIA A BORDO

Que tal sair um pouco das telas com seus filtros da realidade e partir para uma experiência sensorial, na qual os ouvidos podem se brindar com boa música, o paladar e o olfato com queijos e vinhos, os olhos com a paisagem bucólica de Minas, o tato no toque das serragens que compõe a tradição religiosa dos tapetes das procissões? Pois tudo isso pode ser vivido no Sábado Santo, véspera da Páscoa no Trem da Vale Jazz.

A Semana Santa de Ouro Preto, com seus muitos encantos, enche os olhos de moradores e turistas. O trem turístico que une Ouro Preto e Mariana terá programação especial. Na noite do Sábado de Aleluia, o Trem da Vale – Jazz, em sua primeira edição, invade o trem noturno, com programação que privilegia a experiência lúdica de uma viagem no tempo, com aromas e sabores inesquecíveis, além do som contagiante da Charanga Pop Jazz. Durante os passeios a Cafeteria a Bordo – Marília & Dirceu oferece um cardápio especial com queijos do Sul de Minas e vinhos selecionados pelo sommelier convidado Maicon Rodrigues.

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Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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