03 Abr 2018 | domtotal.com

Ira brasileira

A paz não é ausência de conflitos.

Muitas das vezes a educação para a fraternidade se esqueceu do elemento irascível que compõe o ser humano.
Muitas das vezes a educação para a fraternidade se esqueceu do elemento irascível que compõe o ser humano. (Reprodução)

Por Gilmar Pereira

Dá-me um copo de cólera e enche meu peito de fúria, que ainda não estou suficientemente indignado. Dá-me um gole de raiva que bata seco no estômago e me faça transpirar ansioso ou me faça chorar. É que a embriaguez do asco não me é suficiente. Ainda estou inibido.

Travado no canto, não reajo. Acostumei-me aos tapas e deboches. Submisso, subserviente, subjugado. Mesmo grande, fui tornado pequeno. E o poder que tenho me foi sendo sugado aos poucos. Quem cresce enredado acostuma-se à limitação dos movimentos e não sabe o que é liberdade. Sofrendo, sempre ri e sorri – de alegria e nervoso.

Hoje vivo dividido e minha alegria é furtiva. Por tamanha opressão, encontro-me confuso, dividido, desesperançado. Em mim há gritos da barbárie que vez e outra emerge (ou na qual me submerjo). Tenho medo.

Minha cura está numa taça de indignação. Só ela pode me fazer levantar e reunir forças para a grande libertação. Embriagado, posso tomar a faca e cortar minha própria carne para extirpar o mal que nela cresceu; típica anestesia de cirurgias rudimentares. Nada drástico para quem é rude. Nunca fui civilizado, só domesticado. Quem me vê em margens plácidas imagina que vim de berço esplêndido, mas sou feroz.

A paz não é ausência de conflitos. Sem uma boa dose de revolta não há mobilização para se restaurar da degradação sofrida. É preciso estar indignado para se mover e sair do lugar. Quem tudo releva acaba vítima e suscetível a toda sorte de injustiça. Apesar disso, é preciso que se saiba que a raiva sem causa é apenas destruição; com um porquê, torna-se motivo do agir. Contudo, o objetivo ainda deve fulgurar para que tal embriaguez não se torne um estado permanente como a fúria do surto de um louco. O bem, a paz e a justiça são o fim.

Si vis pacem, para bellum.

Bubble Fest Belo Horizonte

Muitas das vezes a educação para a fraternidade se esqueceu do elemento irascível que compõe o ser humano. Algumas pulsões humanas foram tidas como menos nobres e, ao invés de serem trabalhadas, foram reprimidas. Isso talvez explique o porquê de muita gente não saber lidar com a própria raiva, já que não se permitiam sentí-la. E por tanto sufocar os sentimentos que estabeleceram como negativos, a pessoa vai se tornando uma "panela de pressão". O ideal, como se diz, quando a indignação crescer, é crescer junto com ela. Precisamos de uma educação que não nos gere passividade, mas que nos ajude a apropriar até mesmo da raiva à nosso favor.

Nesse sentido, jogos e brincadeiras costumam ser bons exercícios para desenvolvermos tais habilidades. Além disso, permitem-nos dar vazão às tensões acumuladas de modo positivo. Os corpos inertes diante das telas de computador têm cumulado a comunicação de ódio, pedem movimento e expressão de sua força. Que tal brigar, mover-se, disputar? Então você precisa conhecer o Bubble Fest.

Acesse às informações no site do Sympla.

 

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas