11 Abr 2018 | domtotal.com

Deixa de guerra

Dos modos duros e pesados de viver está a ideia da vida como luta ou disputa.

Quem vê tipos, não vê coração.
Quem vê tipos, não vê coração. (Divulgação/ Diego Ciarlariello)

Por Gilmar Pereira

Pode-se viver de diversas formas, de acordo com o imaginário que se nutre. Ideias têm peso e podem carregar a alma. Assim, há quem viva duramente enquanto outros, por sua vez, sobem leves e grandes das ideias que os enchem. E ideais também, essas crias de ideias e valores que orientam vidas.

Dos modos duros e pesados de viver está a ideia da vida como luta ou disputa. Causa horror uma vivência assim! Conflito, embate, briga. Não sei se gente assim atrai ou cria confusão. Só sei que elas existem aos montes. Tudo acontece com elas.

Deus me livre de viver brigando! Gosto da vida celebrada, com banquete e música. Cada encontro é dança e palavra é comida. Não perco a classe quando pisam no meu pé, nem deixo de aproveitar a festa do viver por palavra servida fria e com verbos indigestos. Sei dançar o suficiente para que o show não pare. Viver pede rebolado e esse não se pode perder por qualquer coisa. Quando não dá, a gente toma um trago e recupera o fôlego da pista. Não dando para comer, faz silêncio quando o garçom passar.

Faço questão de não ter inimigos. Talvez eu o seja de alguém, ou melhor, para alguém. Mas aí a culpa não é minha – mesmo que em parte até seja –, a culpa é das ideias que enchem o peito alheio. É que essa gente fecha a casa inteira e fica num abafamento de ar parado em vez de escancarar o peito e a mente. Proteger-se demais cria prisão para si.

Quem vive em luta precisa de inimigos ou oponentes e tudo lhes é ameaça. Na religião, sua espiritualidade é a de quem tem que luta contra o mal, vivem em combates espirituais e os que creem diferentemente supostamente querem acabar com sua fé. No trabalho têm a sensação de que todo mundo quer lhes derrubar; não concorrem a uma vaga, disputam; tudo é um jogo arquitetado e ao qual devem sobreviver. Os relacionamentos são quedas-de-braço na qual o entregar-se significa ser vencido; nunca se fazem, por isso, inteiros numa paixão, ao passo que a dinâmica que criam acaba por lhes sugar inteiramente.

Ao ver nos outros uma ameaça, corre-se o risco de lhes dar sempre o que se tem de pior. A ausência de frescor de ideias novas para encher o peito e que depois falta à mente leva à alucinação. Não se vê o rosto do outro, apenas uma classificação. Daí não há o Pedro, que era do mesmo grupo; não há a Carolina, que estudou na mesma escola; não há o Manuel , o tio. Não existem indivíduos com histórias, somente pessoas reduzidas a um grupo: o gay, o comunista, a mulher, o policial, o crente. Faz-se então uma imagem estereotipada de uma dessas classes e assim se estabelece sentenças definitivas: “toda mulher é assim e fulana é mulher, logo...”, “fulano não acredita em Deus, então você já viu, só pode ser desta ou daquela forma”.

Quem vê tipos, não vê coração. Quem classifica pessoas não chega a encontrar a singularidade alheia. Quem não encontra o outro acaba padecendo dos fantasmas que cria e se torna casa assombrada. Mas isso é um jeito de levar a vida – ou de ter a vida levada.

Coração

Não viver em luta é diferente de ser combativo, quando se apresenta resistência aos males sofridos. É essa combatividade e intensidade que o cantor Johnny Hooker apresenta no palco do Sesc Paladium, em contraposição à entrega dolorosa de seu álbum anterior.

Conhecido por cantar “amores marginais”, o cantor pernambucano não é só um ícone gay. É isso também e muito mais, o que resplandece em sua composição “queer”, sua voz singular e a abertura a outros ritmos que lhe impede de ser colocado em apenas uma caixinha. No álbum coração, Hooker transita pelo samba, tecnobrega, R&B e outros.

O show do álbum Coração acontece nesta quinta-feira, 12, às 21h no Sesc Palladium.

Maiores informações no site Ingresso Rápido.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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