17 Abr 2018 | domtotal.com

Nova era

Adaptados ou não, vivemos em tempos de mudança ou, se preferirem, mudança de tempos.

Obra 'Caravel
Obra 'Caravel" de Ivan Henriques (Brasil) (Reprodução/ Bienal de Arte Digital)

Por Gilmar Pereira

Com o avanço das tecnologias da comunicação e da informação, tem-se consolidada a ideia do pós-humano, uma categoria que assinala a implicação entre o vivo e o maquínico. De fato, cada vez se pensa menos no tecnológico como instrumental, mas sim na perspectiva do imersivo ou da convergência, na qual os aparatos digitais se tornam extensivos ao humano. O orgânico e o cibernético já dialogam nos corpos daqueles que têm a mente e a cultura transformadas pela atual revolução tecnológica, de modo que já se questiona o surgimento de uma nova etapa para o homo sapiens, a do ciborgue.

Falar dessas mudanças soa estranho quando vendedores ainda ficam confusos com pagamentos feitos por meio de NFC (Near Field Communications) ou MST (Magnetic Secure Transmission) - tecnologias de comunicação por aproximação. Soa impensável quando, apesar da disponibilidade de sites de busca, muitos ainda não fazem seu devido uso, caminhando na desinformação. Chega a ser estranho por ainda se ouvir a pergunta de como se faz para chegar a determinado lugar de carro, mesmo que se tenha celular com GPS e aplicativos de locomoção urbana. Ainda impacta o fato de estudantes copiarem conteúdos da internet para seus trabalhos sem crítica alguma ou  capacidade de pensar ou questionar seus conteúdos. Isso sem falar da dificuldade que pessoas jovens de contexto urbano têm em usar caixas eletrônicos ou internet bank.

Segundo dados de 2016, 64,7% da população com idade acima de 10 anos está concectada à internet, sendo que o meio mais utilizado é o celular. Isso ilustra uma realidade que ultrapassa o tecnológico e toca a constituição dos sistemas de significação pessoais: temos uma população analógica e uma digital. E isso não diz respeito, necessariamente, à idade. Embora os chamado "nativos digitais" tenham maior facilidade em transitar nessa nova cultura e já sejam moldados por ela, vale lembrar que ter nascido após o surgimento da internet nos países em desenvolvimento explica que nem todos estejam, de fato, aptos para o novo tempo. Por outro lado, há quem seja mais velho e que acompanhou de perto toda essa transição e seja muito mais digital do que aquilo que chamam de "geração Y". A desigualdade social nos países do antigamente chamado Terceiro Mundo e sua facilidade ou não de acesso às novas tecnologias faz com que as teorias sobre gerações (baby boomers, X e Y) sejam bastante questionadas.

Adaptados ou não, vivemos em tempos de mudança ou, se preferirem, mudança de tempos. Sim, os tempos são outros e não é exclusividade de ninguém a impressão de que os dias e as horas passam mais rápido a cada ano. Desde que encurtamos as distâncias, os processos ficaram mais rápidos e, consequentemente, mais trabalho passou a ser executado, além da carga de informações que nos chegam diariamente ser também muito maior. A impossibilidade de assimilar tanto dado talvez nos faça, às vezes, ficar numa espécie de ausência da realidade. É possível que já tenha lhe acontecido de ler um texto pensando em outra coisa e, ao chegar ao seu final, saber que leu mas não o que, como se estivesse em algum tipo de inconsciência. Assim, os tempos de ausência de si acabam provocando a sensação de ausência do tempo. A compreensão espacio-temporal atual é outra. Como nosso pensamento se alicerça nessas duas categorias, espaço e tempo, sua alteração implica não só numa mudança cognitiva, mas numa transformação do mundo percebido.

Não houve apenas encurtamento de distâncias, mas a distância mesma desapareceu principalemente na relação projetiva que se estabelece entre a pessoa e seus múltiplos avatares ou perfis digitais. Se "estou" numa rede social, estou no espaço digital, que goza de outra relação que não é a nossa de espaço-tempo, mas que apenas emula essas categorias. No universo digital tudo é bit, zero e um, o uno que se resolve na díade. Quanto a nós, somos cada um uma ideia geral de nós mesmos que se realiza na multiplicidade de perfis em cada rede social. Posso ser um no Instagram, outro no Facebook, outro ainda no Twitter ou no Pinterest, mas todos sou eu. Ou seja, minha presença é múltipla, além de poder me fazer presente a diversos lugares do mundo, o que rompe definitivamente com a categoria de espaço como concebemos.

Apesar dessas diferenças, não se pode falar de um mundo real e outro virtual. O virtual também constitui uma realidade. Seria uma falsa oposição pensar que há uma mútua exclusão entre esses dois mundos que, na verdade, convergem. Aliás, a tendência atual é a de que a convergência cresça na "realidade aumentada" - onde a interação da pessoa com o mundo físico se dá conjuntamente ao digital. Imagine andar com algum aparato, como um óculos, por exemplo, e, ao olhar para um prédio, saber que estabelecimentos comerciais ali existem, ter acesso à sua tabela de preços e produtos sem precisar entrar em um por um? Ou olhar para uma sala e já surgir suas medidas para um possível reforma? E que tal olhar para um cardápio de papel e conseguir ver, se quiser, um vídeo com sua receita ou número de calorias? Essa era a pretenção do Google Glass, que atualmente é usado em empresas onde funcionários que precisam seguir instruções de montagem têm, diante de seus olhos, as etapas a serem seguidas, sem precisar folhear um manual.

Nessa mudança de tempos nos falta compreender as dimensões desses acontecimentos e de que modo eles impactam na nossa cultura, em nosso imaginário, em nossos afetos. Não basta inserir o uso de tecnologias em nossos sistemas educativos, cabe agora pensar a tecnologia com suas próprias categorias. E o devemos fazer tão logo porque o jogo muda de fase rapidamente e não queremos que cair num descontrole que nos leve ao game over.

Bienal de Arte Digital

Acontece em BH e no Rio a Bienal de Arte Digital, que deriva do Festival de Arte Digita, com a missão de valorizar sobretudo o pensamento crítico a cada dois anos dos processos digitais e tecnológicos da vida e na arte. As atividades que deram início no dia 26 de Março se estendem até o dia 29 de Abril podem ser conferidas em 4 espaços da capital mineira. Maiores informações e a programação completa estão no site do Festival.

 

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas