26 Abr 2018 | domtotal.com

Brutalidade contra professores

O município de Belo Horizonte tem hoje mais de 15 mil professores dedicados à infância.

A escaramuça contra os professores municipais me fez lembrar a repressão do regime militar contra seus opositores.
A escaramuça contra os professores municipais me fez lembrar a repressão do regime militar contra seus opositores. (Reprodução / Itatiaia)

Por Jorge Fernando dos Santos

Independentemente de credos ideológicos, nada justifica a violência empregada pela Polícia Militar contra os professores das Unidades Municipais de Educação Infantil (Umeis) no seu primeiro dia de greve, segunda-feira (23/4), em Belo Horizonte. Os soldados usaram jatos d’água, balas de borracha, bombas de efeito moral e sprays de pimenta, para dispersar os manifestantes.

Por mais radical que pudesse ser o movimento, não é desse modo que se tratam educadores, sobretudo num país cujo ensino público carece de investimentos e, consequentemente, de qualidade. Aliás, a escaramuça contra os professores municipais me fez lembrar a repressão do regime militar contra seus opositores.

Para aqueles que têm boa memória, a ação policial também ecoou as declarações do governador peemedebista Hélio Garcia, que durante uma greve de professoras duramente reprimida chegou a dizer que todas elas eram “mal casadas”. Hoje, a PM está submetida ao petista Fernando Pimentel, mas parece que pouca coisa mudou. Segundo a imprensa, ele pediu a apuração dos fatos.

O comando da corporação alega que a ação policial teve por objetivo desocupar as pistas da Avenida Afonso Pena, em frente à sede da PBH. Convenhamos que a mesma energia não fora empregada contra os militantes do MST, que recentemente queimaram pneus e fecharam as rodovias que dão acesso ao centro da cidade, em protesto contra a prisão do ex-presidente Lula.

Equiparação salarial

O prefeito Alexandre Kalil, por sua vez, disse que as manifestações não passam de um “movimento político”. Talvez ele não saiba que toda luta reivindicatória é, sim, de natureza política e que os professores estão apenas cobrando uma de suas promessas de campanha. Ele chamou a liderança do movimento de “pelegos, interessados em candidaturas próprias”.

Os professores de nível médio das Umeis ganham salário inicial de R$ 1,4 mil e pedem a equiparação com os colegas do ensino fundamental, que têm formação superior e recebem R$ 2,1 mil mensais. Além de aumento salarial, os grevistas querem a unificação das duas classes.

Kalil ressaltou que é impossível atender as reivindicações. Já sua secretária de Educação, Ângela Dalben, sugeriu que o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte (Sind-REDE) deveria lutar pela aprovação do Projeto de Lei 442, que tramita na Câmara dos Vereadores e visa estabelecer um aumento salarial em torno de 15%.

O município de Belo Horizonte tem hoje mais de 15 mil professores dedicados à infância. Segundo o Sind-REDE, mais de 50 Umeis paralisaram as aulas no primeiro dia de greve e outras 100 unidades funcionaram parcialmente. Cerca de 60 mil alunos estão sendo afetados pela paralisação, que não tem previsão de acabar. A próxima assembleia da categoria está marcada para quinta-feira (3/5).

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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