27 Abr 2018 | domtotal.com

Perdidos no tempo

A incerteza do futuro gera a angústia no presente que se ressente das expectativas criadas no passado e que não lograram sucesso, o que leve à idealização de um passado mais remoto, não vivido, que aliena.

Cena de 'Jogador nº 1'.
Cena de 'Jogador nº 1'. (Divulgação/ Warner Bros. Ent. / Jaap Buttendijk)

Por Gilmar Pereira

Há quem diga que a vida adulta possa ser resumida em pagar boleto e tentar emagrecer. Uma frase em tom humorístico repleta de melancolia e certa decepção. Os sonhos de realização profissional e sucesso financeiro pervertem-se no trabalho mal remunerado, suficiente para pagar contas, mas não para o desfrute da vida. O ideal de emagrecimento implica na não correspondência entre o próprio corpo e aquilo que é estabelecido social e midiaticamente como o belo.

A frustração com o presente é algo que atinge a muitos nas diversas épocas. O filme Meia Noite em Paris fala disso ao colocar personagens de diversas épocas sonhando com o período anterior ao seu. De fato, não é exclusividade do nosso tempo esse desencanto. Contudo, as novas gerações têm revelado sintomas maiores do descontentamento com o presente e angústia do futuro. Sobre elas foi feita uma expectativa muito grande. Notadamente, o acesso ao ensino superior é maior que no passado e cada vez mais as pessoas investem em sua qualificação profissional. Contudo, isso não é garantia de emprego e, muito menos, de um que seja bom. E diversos funcionários de empresas “descoladas”, com piscina de bolinha e escorregador, que podem trabalhar sem uniforme, relatam que a aparência divertida esconde exigências e pressões maiores. Aparência cool, vivência insalubre.

Como agravamento, tem sido incutido na mente das pessoas que aquele que reclama de suas condições laborais é um preguiçoso e que ninguém é obrigado a aceitar um subemprego, trabalha por que quer. Desconsidera-se que, com altos índices de desemprego, diversos empregadores estabelecem salários injustos que são aceitos por pessoas que não podem esperar por uma vaga melhor. Se um não quer, outros tantos aceitam. A mão de obra barata é sempre disponível. Como absurdo ainda há o discurso de que poderiam empreender, como se todo mundo dispusesse de capital inicial para começar uma empresa. Os “cases” de sucesso não consideram os casos de fracasso. Basta dar uma passada em qualquer unidade do SEBRAE para ouvir as histórias de empresas que fecham antes do seu terceiro ano. Fizeram acreditar que a geração atual seria especial em relação às outras, que poderiam conseguir seu primeiro milhão antes dos 30 anos e que, como dizia a Xuxa, há um tríptico que une “querer, poder e conseguir”. Agora se vê gente acusada de ter exclusividade na culpa de seu fracasso desconsiderando o papel do Mercado e da injustiça social.

Pesados pela culpa e pelo insucesso, o futuro se mostra obscuro. A saída encontrada é o passado. Há uma turba de jovens que tentam conseguir recompor algum período da história, ainda que por meio do discurso e da estética. Falam com saudosismo de algo que não viveram, defendendo valores, posturas e ideais que há pouco se tinham como superados. Outros, ainda, tentam se cercar desse imaginário por meio de elementos significativos de outras épocas. Daí vemos na moda o apelo ao retrô e ao vintage; nos filmes e séries, referências aos anos 80 , 70 e 60; na religião, a hipervaloração do latim, missa trindentina, véu, ou a busca pelas religiões ligadas à natureza; na política, a defesa do indefensável abuso de poder preconizado pela ditadura e o ódio aos comunistas de um lado, e a crença num projeto de Esquerda aos moldes do que se pensava na mesma época de outro, sem falar dos novos monarquistas que veneram a família imperial brasileira. Numa recente propaganda de cerveja se vê Dadá Maravilha, Vampeta e Túlio Maravilha brindando o futebol das antigas. Negação do holocausto, cosmologia da Terra plana e outros fenômenos se espalham.

Ao mesmo tempo, vivemos em tempos de tecnologia avançada e mudanças de paradigma. Não se pode esquecer os avanços das ciências como os alcançados pelo mapeamento genético, a presença de maquinário humano em Marte, as descobertas realizadas com acelerador de partículas etc. Como essa realidade parece velada aos “iniciados”, ela surge como obscura e ameaçadora. Assim vemos quase sempre nos filmes que imaginam o futuro uma realidade distópica, quando robôs controlam humanos ou os avanços tecnológicos provocaram um grande cataclismo ou, ao menos, culminaram em repercussões sociais trágicas.

A incerteza do futuro gera a angústia no presente que se ressente das expectativas criadas no passado e que não lograram sucesso, o que leve à idealização de um passado mais remoto, não vivido, que aliena. Temos a inversão da relação saudável com o tempo, que é aquela que olha para e aprende com o passado a fim de assumir o presente e, desse modo, projetar e construir o futuro. Não vivemos o presente, estamos ou num saudosismo ou na ansiedade do porvir. Não aprendemos com o passado porque não conseguimos ler a História, juntar seus fragmentos e entender o rastro que nos deixa. Não conseguimos sonhar com o futuro e, muito menos, colocar os meios necessários para realizar um tempo melhor. Por nos perdemos no tempo, nosso tempo parece perdido.

Jogador nº1

 O filme Jogador nº 1 (Ready Player One) parece tratar dessa correção do tempo. O longa apresenta um futuro distópico, quando o povo precisa de uma rede social, Oasis, como fuga da realidade. Seu criador deixa um vídeo após sua morte anunciando que há três Easter Eggs escondidos nesse universo virtual e que aquele que os encontrar terá o controle da empresa detentora dos direitos sobre este paraíso digital. Repleto de imagens próprias da cultura geek e pop dos anos 80, o filme não se revela um mero saudosista. Ao contrário, a tarefa dos protagonistas é sempre a de entender o passado para ler o presente e, desse modo, ter um futuro livre. Para isso, precisam inverter a lógica convencional (ou convencionada) de quem foi moldado pelo Mercado e pela ideia de sucesso. Assim, para avançar, devem recuar; para acertar, devem assumir os erros; para ganhar, devem perder – quase uma metáfora cristã onde “quem quiser salvar sua vida, vai perde-la” e quem perde-la por causa do Reino “vai ganha-la”. Mais que idealizar uma fuga, da realidade seja em paraísos artificiais ou mesmo num passado idealizado, a proposta do filme de Spielberg é assumir a vida e o presente.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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