05 Mai 2018 | domtotal.com

A dignidade do trabalhador no mundo do desemprego

Em plena recessão e em um mundo do desemprego, os bancos registram lucros bilionários e absurdos.

Os pobres e trabalhadores podem ser construtores de uma nova sociedade mais justa e mais humana.
Os pobres e trabalhadores podem ser construtores de uma nova sociedade mais justa e mais humana. (Reprodução/ Pixabay)

Por Marcelo Barros

Nesse 1º de maio, a classe trabalhadora comemorou seu dia em um mundo cada vez mais dominado pelo desemprego e pela precarização do trabalho. No Brasil atual, conforme o IBGE, a taxa de desemprego está em 12, 6%. Isso significa que o número de desempregados subiu desde o ano passado. Ao mesmo tempo, a chamada reforma trabalhista, implementada pelo atual desgoverno abriu todas as portas e janelas para a terceirização de todas as atividades empresariais e a precarização do trabalho. O objetivo da reforma foi desmontar os direitos trabalhistas e diminuir as garantias que os trabalhadores tinham na lei. A finalidade disso é a redução de preços de produção e assim aumentar o lucro das empresas. Para esse fim, a automação do trabalho faz com que, dentro de cinco anos, desaparecerão do mundo quinze milhões de emprego. Trabalhos que até agora são realizados por trabalhadores serão totalmente cumpridos por robôs ou mesmo nem existirem. Em todas as categorias de produção, isso gera desemprego em massa. Antigamente, o trabalhador que perdia, hoje, o seu emprego, tinha esperança de, em breve tempo, conseguir outro trabalho. Atualmente, a perda do emprego tem um caráter trágico porque é o próprio trabalho que, ao ser automatizado pode desaparecer.

O mundo atual é dominado pelo que, com muita propriedade, Lasdilau Dowbor chama de "capital improdutivo". Os bancos e empresas financeiras que, antes, estavam a serviço do sistema produtivo, atualmente, dominam o mercado e vivem de rendas. Em plena recessão e em um mundo do desemprego, os bancos registram lucros bilionários e absurdos. Isso gerou um mundo no qual oito famílias têm mais riquezas do que a metade da população mundial. E os meios de comunicação chamam isso de desenvolvimento e pregam que é inevitável. Fazem de conta que denunciam a corrupção dos políticos e nunca contam como essas grandes somas de dinheiro se movimentam de um país a outro. Ninguém alude ao papel dos grandes bancos em meio a tudo isso. O sistema financeiro nunca pode ser colocado em questão.

No Brasil e no mundo inteiro, a sociedade civil organizada e os movimentos sociais se levantam contra esse sistema. Rompem o dogma do "não tem outro jeito". Inventam alternativas criativas e revolucionárias. Em todo o mundo se espalham experiências de economia solidária e de produção em cooperativas livres e não dominadas pelo sistema capitalista neoliberal. No Brasil, movimentos sociais como o dos trabalhadores sem-Terra (MST) e dos pequenos agricultores (MPA) nos dão exemplos na Agricultura Ecológica e na produção de alimentos para a mesa do nosso povo. Atualmente, em muitas cidades, os movimentos sociais não somente festejam o 1º de maio. Fazem uma Semana da Classe Trabalhadora.  Promovem encontros e reflexões sobre precarização do mundo do trabalho, as péssimas condições de segurança em muitos trabalhos e as ameaças de privatização dos hospitais públicos e das cadeias. Defendem o sistema de saúde dos trabalhadores, assim como outros desafios que o povo empobrecido enfrenta no Brasil. Na Argentina e em outros países do continente, nos últimos anos, dezenas de indústrias falidas e que iriam fechar foram tomadas pelos trabalhadores que começaram a administrá-las gerando novos empregos. Todas essas empresas puderam se reestruturar. A produção é garantida e os trabalhadores provam que é possível uma administração mais justa do trabalho e das condições de vida humana.

Nos seus encontros com os movimentos sociais, o papa Francisco tem insistido que esse sistema econômico é iníquo. O papa acredita que os pobres e trabalhadores podem ser construtores de uma nova sociedade mais justa e mais humana. Na sua carta mais recente, ele chama os cristãos e cristãs de todo o mundo a viver o espírito das bem-aventuranças de Jesus e, como os profetas e profetizas da justiça e da paz, nunca se conformarem com um sistema injusto e excludente. Lembra que o evangelho chama Jesus de carpinteiro ou artesão, termo usado na época para qualquer trabalhador braçal. Assim, os homens e mulheres que hoje assumem a missão de participar da caminhada coletiva do mundo do trabalho sabem que ao lutar pacificamente para transformar esse mundo estão sendo testemunhas de que o reinado divino está vindo e Deus está presente na luta do povo pela justiça e pela paz.

Marcelo Barros
Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).
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