04 Mai 2018 | domtotal.com

O incômodo 1º de Maio


A reforma trabalhista implementou medidas ao gosto dos patrões e dificultou o acesso à justiça do trabalho.
A reforma trabalhista implementou medidas ao gosto dos patrões e dificultou o acesso à justiça do trabalho. (Reprodução)

Por Marcel Farah

É difícil de se identificar a classe trabalhadora em tempos de classe média, média baixa, média alta, baixa e alta. Disfarces utilizados por uma sociologia que tenta esconder os interesses opostos entre a verdadeira elite, que vive de seu patrimônio e do trabalho de seus empregados e o povo, que vive de seu trabalho.

Com a implementação do 13º salário, por Jango, nos idos de 1962, o Globo estampava na manchete “Considerado Desastroso Para o País um 13º Mês de Salário”[1]. Os meios de comunicação de massa, como grandes empresas que são no Brasil, nunca foram favoráveis às conquistas da classe trabalhadora. Por outro lado corroboram com o disfarce, não se fala em classe trabalhadora nos jornais. É como se ela não existisse, ou fosse algo fora de moda.

Com todo este esforço a elite brasileira conseguiu fazer do 1º de maio uma data com pouco sentido para trabalhadores e trabalhadoras. Entre outros motivos por esta falta de identidade cultural entre o povo que vive de seu trabalho e a classe trabalhadora. Hoje temos um 1º de maio pouco massivo e incômodo para o noticiário, e para a “classe média”.

Contudo, sob o ponto de vista da classe trabalhadora, pouco há para se comemorar no primeiro dia do trabalhador e da trabalhadora após a reforma trabalhista do governo golpista de Michel Temer.

A reforma trabalhista implementou medidas ao gosto dos patrões e dificultou o acesso à justiça do trabalho, retirou direitos e enfraqueceu garantias. São dezenas de pequenas alterações promovidas pela Lei 13.467/2017, que vão desde a permissão de jornadas de trabalho de 12h (para trabalhadores da saúde), até liberação para que mulheres grávidas e lactantes sejam mantidas em atividades insalubres.

Visto de conjunto a situação não é melhor, o salário mínimo perdeu força com um reajuste abaixo do esperado. Foi derrubada a política de valorização implementada pelo governo Lula, o principal instrumento de distribuição de renda da era petista.

O desemprego em alta atinge quase 14 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa por Amostra de Domicílios do IBGE de abril de 2018. O resultado só não é pior porque a informalidade tem “segurado as pontas”, há queda do número de empregados com carteira assinada em relação ao mesmo período de 2017.

O aumento do trabalho informal produz aumento da desigualdade de renda fazendo com que os mais pobres recebam menos e os mais ricos recebam mais. A desigualdade de fato aumentou e os 5% mais ricos do Brasil tem a mesma renda que os demais 95%[2].

A pobreza aumenta e os ganhos dos períodos petistas são destruídos aos poucos. Conforme o IBGE a quantidade de pessoas extremamente pobre que vinha sendo reduzida mesmo nos últimos anos do governo Dilma, voltou a aumentar. De 2016 para cá houve aumento de 11%, de 13,3 milhões para 14,8 milhões de pessoas com renda abaixo de R$ 85,00 mensais (critério do Programa Brasil sem Miséria).

Além destes indicadores econômicos e da disputa cultural (a busca por inviabilizar a identidade de trabalhadoras e trabalhadores), as principais armas de luta política da classe trabalhadora enfrentam processos intensos de criminalização. Para dar suposto fim ao mal da corrupção a operação lava-jato leva parte do Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal, apoiados pelos meios de comunicação, a criminalizar a política e perseguir a forças de esquerda. A sanha punitivista encontra comprovação objetiva no fato de 1.729 inquéritos concluídos pela Polícia Federal de 2013 a 2017, 1.256 foram concluídos sem indiciamento[3]. Ou seja, a PF não busca o crime, mas sim o escândalo perfeito, fartamente noticiado pela mídia, e sem resultados concretos.

Por isso vemos a criminalização dos movimentos sociais e sindicais, dos partidos de esquerda e a prisão, sem provas, de Lula. O punitivismo do sistema jurídico e policial que sempre existiu para a classe trabalhadora, principalmente para os pobres, pretos de periferia, cada vez mais atinge quem ousa defendê-la institucionalmente. Enquanto uma liderança trabalhadora vai presa, os corruptos de verdade estão soltos a governar o país.

Portanto, há um conjunto de desafios econômicos, políticos, jurídicos, sociais e culturais a enfrentar que requerem um replanejamento de médio e longo prazo para as esquerdas, sem o qual de pouco adiantará nossas lutas de curto prazo e a resistência ao golpe em curso.

Cada vez mais é preciso entender no dia 1º de Maio: o golpe foi contra a classe trabalhadora!


[1]Dispontível em http://www.pt.org.br/clt-faz-75-anos-no-1o-de-maio-seu-maior-defensor-esta-preso/

[2]Dados da Oxfam, disponíveis em http://www.inesc.org.br/noticias/noticias-gerais/2017/outubro/politicas-do-governo-temer-agravam-desigualdade-social-afirma-assessora-do-inesc/view

[3]Conforme editorial do Estadão em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-escandalo-pelo-escandalo,70002290004?from=whatsapp; ou seja, nem a grande mídia suporta tamanho tendenciosismo, afinal sua credibilidade depende disso.

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas