09 Mai 2018 | domtotal.com

O país que eu quero

Tentamos limpar nossa cara forjando uma memória gloriosa e triunfal, que não é mentira, mas também não é verdade.

A obra, de dança e música flamencas, traz o título de um poema escrito pela freira Juana Inés de la Cruz
A obra, de dança e música flamencas, traz o título de um poema escrito pela freira Juana Inés de la Cruz (Divulgação)

Por Gilmar Pereira

“Rastro e aura. O rastro é a aparição de uma proximidade, por mais longínquo esteja aquilo que o deixou. A aura é a aparição de algo longínquo, por mais próximo esteja aquilo que a evoca. No rastro, apoderamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera de nós” – Walter Benjamin.

Oswald de Andrade já dizia: “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval”. Seu Manifesto Antropofágico alude àquilo que é a pergunta existencial do povo brasileiro: “Tupi, or not tupi that is the question”.

Dizimamos nossa população indígena além do assassinato cultural que lhes infligimos na imposição da cultura europeia. Contudo, se a nação se olha no espelho, encontra o rastro de seu passado. Mesmo querendo apagar seu passado beligerante, os fragmentos da história persistem.

Tentamos limpar nossa cara forjando uma memória gloriosa e triunfal, que não é mentira, mas também não é verdade. Aos vencedores, tudo valeu a pena e digno de ser cantado. A destruição é tida, apenas, como obstáculo vencido na edificação daquilo que é gigante pela própria natureza.

E assim criamos nossos heróis. Temos um Pedro I asséptico e virilmente pomposo às margens do Ipiranga; Joaquim José da Silva Xavier, como um Cristo enforcado, renomeado – como na tradição cristã o foram alguns santos – de Tiradentes; Pedro Álvares Cabral um afortunado que descobriu acidentalmente a terra onde tudo o que se planta dá. Mais recentemente chegamos à ideia de que não houve ditadura, mas, tão somente, intervenção militar. Isso sem falar das inúmeras revoltas que jamais atingiram o status de guerra civil. Cabanagem, Chibata, Canudos, Confederação do Equador, Conjuração Baiana, Insurreição Pernambucana, Farrapos – mal sabemos os nomes, o que dirá de explicar cada uma dessas histórias.

Talvez se queira guardar a imagem palaciana do último baile do Império, na ilha Fiscal. Ou pior, prefira-se romantizar a violência às etnias indígenas e negras no mito da pacífica miscigenação. Talvez se queira ser Europa, o que pode justificar a matriz francesa em nossos programas escolares ou mesmo nossa referências arquitetônicas como Art Decó, Ecletismo, Neo-gótico, Barroco. Destes, o este último foi o que mais se ajustou. Os padres ensinaram os índios a “barrocagem” e eles “indigenaram” o Barroco.

Aqui encontramos nossa aura. Somos antropofágicos; comemos o outro, podendo ser ele sem deixar de sermos nós. Relacionamo-nos de forma mágica com o mundo, somos um povo da oralidade no qual importa mais a narrativa que a exatidão dos fatos, a ritualidade nos impregna a alma, importa-nos mais o clã do que aquilo que chamam nação e da qual sequer temos noção do que seja. Assumimos nossa aura ou o que queríamos ser?

Somos o colonizador e o colonizado, o opressor e o oprimido. Somos um e outro, não sinteticamente apaziguados. Somos barrocamente justapostos e bricolados, contrastados e conflitantes. Tudo certo e nada resolvido.

Antes de se pensar o Brasil que se quer, há de se ter claro o Brasil que se é para saber que Brasil é possível ser. Brasil, Brasil, Brasil.

María Pagés Compañia| Óyeme con los ojos 

O rastro que captamos e a aura que nos capta estão em diversas manifestações culturais, que, quando apresentadas, têm a potência de fazer reluzir passado e presente simultaneamente. Assim o é em obras como a dança flamenca que, sendo figura da cultura espanhola, comporta a resistência mourisca, cigana, árabe, judaica. Quando unida à obra poética de uma freira, mais imagens reluzem, como acontece com Óyeme con los ojos.

Obra magistral de María Pagés, criadora premiadíssima que, desde o início de carreira, com o grande mestre Antonio Gades, desenvolveu uma linguagem própria, poderosa e marcante. Fundou sua companhia em 1990 e desde então não cessou de colaborar com os grandes da dança da nossa época. Óyeme con los ojos, obra de dança e música flamencas, traz o título de um poema escrito pela freira Juana Inés de la Cruz que conta a vida e as inquietudes de uma mulher que tinha a vocação da dança no distante século 17. Acompanhada por 6 músicos, a peça junta palavra, ritmo, canto e melodia, sapateado e percussão, humor e ironia, com uma protagonista talentosíssima.

Informações: SESC

Evento: María Pagés Compañia| Óyeme con los ojos 
Hora: 20h30
Local: Sesc Palladium
Classificação: livre 
Duração: 80 minutos 
Direção: María Pagés 

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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