11 Mai 2018 | domtotal.com

Ditadores, porém bem votados!

Há uma disputa em torno do rótulo de ditador. Esta disputa é feita pela chamada “opinião publicada”, a voz dos meios de comunicação de massa.

As atividades relacionadas com as comunicações são concessões públicas, contudo tratadas historicamente como negócios particulares.
As atividades relacionadas com as comunicações são concessões públicas, contudo tratadas historicamente como negócios particulares. (Reprodução)

Por Marcel Farah

A história de nosso continente é marcada pelo estabelecimento de ditaduras. Não falo de Chaves (Venezuela), Correa (Equador), dos Castros (Cuba), ou Morales (Bolívia).

Em 19 de abril de 2018, o professor Miguel Mario Diaz-Canel Bermúdez, 57 anos, foi eleito pela Assembleia Nacional de Cuba, novo presidente daquele país. Mesmo com eleições periódicas os presidentes cubanos são tratados como ditadores por diversos meios de comunicação. Mas quanto a Miguel Diaz-Canel, como não se chama Castro e ainda não é tão conhecido, passaram a chamar de presidente. Por que a mudança de tratamento, se não houve mudança da forma de eleição?

Há uma disputa em torno do rótulo de ditador. Esta disputa é feita pela chamada “opinião publicada”, a voz dos meios de comunicação de massa. O principal objetivo dos meios de comunicação, com isso, é dar aos governos aos quais são opostos a alcunha de ditaduras, para assim deslegitimá-los.

O poderio dos meios de comunicação, este sim, cria ditaduras de fato sob o disfarce da livre iniciativa. Ao manipular a informação sobre a realidade com enquadramentos, agendamento e pautas próprias, as empresas de comunicação dão um tom específico à realidade que pintam. O tom de seus interesses ideológicos. A liberdade de expressão é filtrada (manipulada) pela liberdade de empresa. E a censura, ao invés de ser do Estado (como nas ditaduras “tradicionais”), é operada pelo oligopólio privado.

O modelo brasileiro de comunicação é oligopolizado por poucas empresas, seis , praticamente. Estas tem uma característica muito marcante, a de serem propriedade de famílias que historicamente se aproveitaram de recursos públicos e de favores de parceiros estatais para se consolidarem, ao mesmo tempo em que influenciam os rumos da política em benefício de sua relação com o Estado.

Por aqui a possibilidade de usar o controle remoto para mudar de canal permite que você escolha qual grande empresa da mídia quer assistir. Mas nunca saímos do circuito Globo, SBT, Bandeirantes, Record. Se lemos jornais vemos que a maioria das notícias são produzidas pelo Globo (novamente), Folha ou Estadão. Se lemos revistas temos as alinhadas Veja, Istoé, Época (que é da Globo novamente) e a única com visão diversa, Carta Capital. Até na TV a cabo temos além de outras a Net, que era da Globo. Ou seja, não há a opção de “mudar de canal”, não temos TVs públicas, ligadas a universidades, a movimentos sociais, não temos jornalismo voltado para os interesses populares, somente o jornalismo empresarial.

A internet é o maior contraponto, onde existem diversas outras vozes de diferentes matizes a formar um cenário mais plural e democrático de informações. O que ainda não altera o cenário geral oligopolizado.

As atividades relacionadas com as comunicações são concessões públicas, contudo tratadas historicamente como negócios particulares. o que explica a necessidade das grandes empresas de terem um pezinho na política que lhes garanta a continuidade da concessão além de recursos do orçamento.

A realidade em outros países latino-americanos não é diferente. Para termos uma ideia, em 1992 uma tentativa golpe militar tentou derrubar o governo de Hugo Chaves na Venezuela, e o presidente provisoriamente empossado pelo golpe era o proprietário da maior rede televisiva do país. Não é por outro motivo que Chaves apostou no fortalecimento da TVSur como tática para diminuir o poderio das demais empresas televisivas de seu país. Até hoje a oposição ao governo Maduro, sucessor de Chaves, tem a televisão empresarial da Venezuela como sua força principal.

Por outro lado, todos os presidentes chamados de ditadores pelas empresas de comunicação brasileiras foram eleitos. Na maioria dos casos participaram e venceram diversas eleições. Inclusive os presidentes cubanos, como o novo presidente eleito na ilha.

Portanto, antes dizer que temos muitas ditaduras na América Latina é preciso perceber que ditador é quem não aprecia o voto popular, exatamente como as emissoras de TV e outras empresas de comunicação brasileiras, que fingem ignorar os votos recebidos por Chaves, Raul e Fidel Castro, Evo Morales, Rafael Correa etc. Fingem ignorar que Dilma foi eleita e injustamente deposta, e que Temer foi “eleito” sem eleição, e seus interesses são contrários ao que demonstrou o voto popular. Ou seja, acreditam que não foi golpe o impeachment de 2016, e fingem que não há povo na América Latina.

A história de nosso continente é marcada pelas ditaduras midiáticas, em que as empresas comandam a comunicação e a política, desprezando a opinião popular e legitimando a opinião publicada. 

Marcel Farah
Educador Popular
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas