15 Mai 2018 | domtotal.com

Como ter uma D.R.

A D.R. implica no exame da relação, no levantar os fatos e sentimentos para se chegar ao que é seu fundamento.

A sinceridade precisa começar consigo mesmo.
A sinceridade precisa começar consigo mesmo. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Discutir a relação pode ser uma oportunidade, mais que um problema. Isso depende do espírito com o qual se chega a tal discussão.  Geralmente ela é sentida como peso devido ao histórico de acusações ou busca de culpados que envolvem algumas conversas entre casais, mas não precisa ser assim.

A primeira coisa que se precisa ter claro é o escopo e o objetivo da chamada D.R. Em sua etimologia, discussão compõe-se do prefixo dis, que tem o sentido de separação, e o sufixo cutere/quatere, que significa sacudir. Supostamente alude ao costume romano de sacudir a raiz de uma planta, separando-a da terra, para examinar sua firmeza. Por extensão, discutir seria o ato de separar as coisas para examina-las.

Aplicada a uma relação, a discussão implica no seu exame, no levantar os fatos e sentimentos para se chegar ao que é seu fundamento. Às vezes a relação vem se deteriorando ou caminhando para uma distância afetiva e não se nota. Examinar o que se tem com a outra pessoa permite que ambos não se machuquem ou não se iludam, levando adiante algo que já não mais existe. Assim, se o escopo de uma D.R. for o exame dos fatos e sentimentos que marcam a relação, o seu objetivo está ou no seu reparo ou na declaração de seu fim.

O problema desse exame está na dificuldade de se reconhecer os próprios erros ou dispor-se à mudança. Daí, aquilo que teria efeito terapêutico à relação acaba se tornado em troca de farpas e acusações, o que mostra que ela já está mal. Afinal, reconhecer os próprios erros implica na disposição de melhorar e crescer por si e pelo outro. Quando um ou ambos se fecham a essa possibilidade e passam a procurar a culpa naquele com quem se relacionam, o que se tem não é mais afinidade, mas disputa. O outro passou a ser alguém a ser vencido.

Tendo em mente esse espírito de crescimento pessoal e mútuo, a D.R. saudável depende de algumas coisas para que o exame feito seja melhor. Uma delas é a compreensão da distância existente entre a intenção com que se faz ou diz algo, o fato ou a fala em si e aquilo que o outro percebeu e como se sentiu. Muitas das conversas começam com “você disse” ou “você fez”, seguidos de uma interpretação afetada e não de uma narração e confissão de sentimentos. Assim, o melhor seria: “Quando você disso isso, eu entendi aquilo e me senti assim”.

Separando essas coisas, abre-se caminho para o mundo do outro e acesso aos próprios sentimentos. A conversa passa do ataque ao diálogo, quando o outro pode dizer o que queria dizer, com qual intenção e o que foi, de fato, feito. Ademais, não se pode dizer que alguém lhe irritou ou ofendeu ou desprezou, mas sim que se sentiu irritado, ofendido ou desprezado pelo que foi feito ou dito. Em linhas gerais, somos os primeiros responsáveis por nossos sentimentos e ninguém tem o poder de me gera-los em outrém. Estes nos vêm de acordo com a consideração e importância que damos às ações e palavras de alguém, o que é diferente de uma agressão real. Ainda que alguém me xingue, não tem o poder de me ofender se não dou peso às suas palavras. Assim o fazemos quando crianças chamam adultos de “feios”. Não nos sentimos mal com nossa imagem, mas entendemos que ela está nervosa conosco, não damos peso à sua fala.

Depois dos relatos de como cada um se sentiu, de quais foram os pontos nodais que os geraram e como a coisa aconteceu para cada um, cabe o passo seguinte: reconhecer os erros e pedir perdão. Quando se está com alguém por amor, não se quer lhe ferir ou magoar. Se isso acontece não é por um desejo deliberado pelo seu mal, mas por erro ou reação imediata, quando se sente tocado num ponto sensível da própria história, num trauma ou inseguridade. Sinto-me atacado e acabo atacando, trata-se de instinto de defesa, que também é importante para a manutenção da própria integridade e dignidade.

O problema em ser reativo está justamente nos equívocos. Fulano diz uma coisa com determinada intenção. Beltrano entende outra e se sente atacado e, em seguida, ataca. Fulano não entende e passa a se afastar ou se proteger de Beltrano. Ninguém pede desculpas ou toca no assunto. Com o não-dito cresce o mal-estar que poderia ser dissolvido com o exame sincero dos fatos.

A sinceridade precisa começar consigo mesmo. Você, em sua história, por exemplo, sempre precisou tomar as rédeas das situações e acabou se tornando demasiado proativo. Entrou numa relação e a outra pessoa, vendo que para você é importante tomar as decisões e que se sente seguro, deixa as escolhas por sua conta. De repente, cansado de decidir e escolher tudo, você passa a se sentir não cuidado, porque a outra pessoa não tem iniciativas. Antes de acusar o outro de negligente, cabe a sinceridade para consigo: talvez eu não dê espaço para que alguém cuide de mim.

Os passos seguintes ao reconhecimento do que está acontecendo e dos respectivos erros são a formulação de um propósito de mudança e a celebração da união. O propósito não pode ser um simples “vou melhorar” genérico, tem que ter um caráter prático, que possa ter visibilidade. “De fato, acomodei-me e deixei você escolher tudo por nós. Vou ser mais propositivo” - seria uma boa resposta a quem se sentiu abandonado. A isso se seguiria o reconhecimento do carinho e do afeto mútuo, encerrado com um beijo ou outras formas de afeto, celebrando a relação.

Toda D.R. tem seu drama. As pessoas ficam expostas e demasiado sensíveis. Reconhecer erros e propor-se à mudança não é fácil, mas crescer, de fato, não é simples. Contudo, são esses tempos de retificação que vão estreitando os laços e construindo uma relação autêntica.

Tempo de cuidar

Cuidar da relação, do outro e de si é sempre preciso. Para tanto, faz-se necessário dedicar algum tempo. Uma grande oportunidade será a segunda edição da Feira de Experiências Terapêuticas do coworking Soul Essencial, que reúnirá técnicas terapêuticas de diversas linhas de abordagem.

O objetivo da feira é expandir o acesso e o conhecimento a respeito das técnicas e praticas terapêuticas que estão disponíveis para nos proporcionar conforto, saúde e equilíbrio. Cada estande oferecerá uma experiência diferente e única de algum recurso terapêutico que auxilia no seu desenvolvimento pessoal e qualidade de vida com um preço de feirinha popular.

O evento contará também com expositores de produtos terapêuticos e naturais para uso diário e para complementar sua experiência com as terapias. Além disso, mãos mágicas foram convidadas a fazerem as comidinhas mais deliciosas da cidade e alimentar nosso corpo e nossa alma com seus sabores.

Mais informações no Sympla e no Facebook.

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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