16 Mai 2018 | domtotal.com

Sabedoria: 'os exploradores terão vida efêmera'

A grande maioria dos exploradores pode não ter consciência de que são opressores e injustos, pois estão enleados nas teias da ideologia dominante.

Quanto mais o capitalista acumula riquezas, tanto mais é impelido a acumular, gerando necessariamente miséria crescente para a classe trabalhadora e para o campesinato.
Quanto mais o capitalista acumula riquezas, tanto mais é impelido a acumular, gerando necessariamente miséria crescente para a classe trabalhadora e para o campesinato. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilvander Moreira

Na Bíblia, no livro de Sabedoria, em Sab 1,16 - 2,20, em gênero literário poético, o sábio desnuda o estilo de vida dos injustos e exploradores que são, de fato, mortais, pois serão varridos da história– por nada acrescentarem de bom à história da humanidade. Com ironia fina, o autor demonstra a estupidez das ações e crenças dos injustos e opressores, que “serão como se nunca tivessem existido e terão vida efêmera” (Sab 2,2.5). Eles vivem no hedonismo e gozando a vida à custa do sangue de muitos (Cf. Sab 2,6), em festas luxuosas e orgias (Cf. Sab 2, 7.9). Vivem rindo à toa, como já denunciava Raul Seixas na música Ouro de tolo: “... você aí parado com a boca aberta cheia de dentes, esperando a morte chegar...”

Essa crítica do livro da Sabedoria cabe perfeitamente para quem vive integrado dentro do sistema do capital, reproduzindo a lógica e os falsos valores do capitalismo. Referimo-nos a quem vive e age pensando que o sentido da vida está em se tornar rico, acumular riqueza, ser egocêntrico, cuidar só de si e no máximo de sua família nuclear e encarar os outros como estranhos e potenciais inimigos a serem abatidos na desenfreada lógica de competição onde apenas uma minoria permanece como classe dominante, sempre superexplorando a classe trabalhadora e a classe camponesa.

Não acreditando em vida após a morte, alardeiam, os opressores: “Vamos oprimir o pobre inocente e não vamos poupar as viúvas, nem respeitar os cabelos brancos do ancião. A nossa forçaserá regra da justiça, porque o fraco é claramente coisa inútil” (Sab 2,10-11). Os injustos e exploradores “armam ciladas para o justo” (Sab 2,12a), porque esses os incomodam e se opõem às práticas opressoras daqueles (Cf. Sb 2,12a). Fiel guardião da sabedoria dos “nossos pais e mães”, “o justo reprova as transgressões que cometemos contra a Lei, e nos acusa de faltas contra a educação que recebemos”. (Sab 2,12b). Faltas contra a Lei são repudiadas pela pessoa justa, mas que Lei? Não as centenas de leis do judaísmo enrijecido e ritualista e nem as 5 mil leis do Estado Brasileiro. O que vale é a fina flor da Lei, que é o Decálogo da Bíblia– Dez Palavras – que se tornou a Constituição dos povos de Deus na Bíblia e tem como núcleo a 5ª palavra que prescreve: “Não matarás!” ou, dito de forma positiva: Faça viver! Nessa esteira, o livro da Sabedoria busca animar o povo para resgatar a Lei fundamental: os princípios que geram vida e liberdade para todos e para tudo. No Brasil de hoje, o sábio do livro da Sabedoria diria: Juízes, julguem conforme os princípios da constituição de 1988. Que as decisões de vocês do poder judiciário sejam instrumentos para de fato se respeitar a dignidade humana, a função social da propriedade, os direitos sociais e contribuir para a superação das desigualdades sociais e a superação da miséria.

Se estivesse vivo em nosso meio, em uma sociedade capitalista de superexploração como a nossa, certamente o sábio do livro da Sabedoria excomungaria e execraria todas as leis e lógicas capitalistas. Essas, ao aprisionar a terra em propriedade privada capitalista e ao expropriar o ser humano de toda e qualquer propriedade, exceto sua força de trabalho, o sacrifica no altar do ídolo capital, acumulando mais-valia em progressão geométrica e gerando exploração também em progressão geométrica. Por outro lado, o mesmo autor, em nosso meio hoje, confirmaria todas as lutas por direitos sociais e contra todas as discriminações e opressões.

“O justo declara ter o conhecimento de Deus” (Sab 2,13), afirma o sábio do livro da Sabedoria. Essa profecia em forma de sabedoria é importantíssima, pois mostra que na comunidade/sociedade há oprimidos que não têm cabeça de opressor, que não acreditam na ideologia dominante veiculada pelos opressores. O que a classe opressora entende como conhecimento não passa de ideologia dominante que justifica seus privilégios e o “espírito” do capitalismo para reproduzir cotidianamente as relações sociais de exploração. Ao compreender que tem o conhecimento de Deus, conhecimento emancipador, o justo está se reconhecendo como oprimido e negando a ideologia dominante, o que é, segundo Paulo Freire, o primeiro passo para que os oprimidos empreendam, em comunhão e na luta coletiva, processos emancipatórios.

Em contexto sócio-histórico de idolatria, de exploração da dignidade humana, de discriminação e criminalização das culturas diferentes, o autor da Sabedoria desmantela a crença dos injustos de que após a morte será o fim de todos e afirma que os justos são felizes porque têm Deus por pai e viverão para sempre. Assim, “proclama feliz o destino dos justos que se alegram de ter Deus como pai” (Sab 2,15b).

“A maldade dos injustos os deixa cegos” (Sab 2,21), constata o sábio. Isso mesmo. A grande maioria dos exploradores pode não ter consciência de que são opressores e injustos, pois estão enleados nas teias da ideologia dominante - ideias da classe dominante - trombeteando aos quatro ventos que a riqueza e os privilégios deles são frutos de trabalho honesto. Mentira, pois na realidade, em uma sociedade capitalista só existem duas formas de se tornar muito rico: por herança ou roubando de forma disfarçada e sutil, pisoteando a ética e a dignidade humana, além de devastar todo o meio ambiente. A pessoa capitalista também se torna opressora, como Ulisses amarrado no mastro do navio, conforme o canto XII da Odisseia de Homero: saboreia a sedução do canto das sereias, mas, amarrado no mastro, não pode paralisar a engrenagem que o sustenta. Quanto mais o capitalista acumula riquezas, tanto mais é impelido a acumular, gerando necessariamente miséria crescente para a classe trabalhadora e para o campesinato.

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas