23 Mai 2018 | domtotal.com

Sabedoria: 'Os justos vivem para sempre'

As pessoas justas, mesmo que tenham vida curta, 'quando morrem, condenam os injustos que continuam a viver' (Sab 4,16)

Cartaz da CPT em homenagem a padre Josimo, assassinado a mando de proprietário de terras em Imperatriz (MA)
Cartaz da CPT em homenagem a padre Josimo, assassinado a mando de proprietário de terras em Imperatriz (MA) (CPT)

Por Gilvander Moreira

No livro da Sabedoria, em Sab 3,1-12, pela primeira vez na Bíblia, surge a ideia de imortalidade de forma assertiva e categórica e não como apenas expressando um desejo de que o justo fosse salvo para sempre – como nos outros livros sapienciais bíblicos. Mas o pensamento semítico e judaico, desde séculos, buscava caminhos de transformar esse desejo em uma certeza de fé. A filosofia grega forneceu ao autor do livro de Sabedoria conceitos que expressassem de forma mais exata o desejo do justo: os conceitos de imortalidade (athanasia) e incorruptibilidade (aphtarsía), que não existiam na língua hebraica. Escrevendo em grego, mas com cabeça hebraica, o autor do livro da Sabedoria usou os termos da filosofia helênica para se expressar mais exatamente.

Certamente houve influência da filosofia grega, disseminada pela cultura helenista durante o período de glória do imperialismo grego que, através de guerras e invasões anexou muitos territórios de outros povos. Mais do que apenas defender a vida pós-morte, o sábio autor do Livro da Sabedoria enfatiza um tipo de fé revolucionária que carrega a seguinte convicção: os justos viverão para sempre e os injustos serão aniquilados. Em consonância com a defesa do estilo de vida das pessoas justas, em Sabedoria 3,8 se afirma outra utopia revolucionária: “Os justos governarão as nações, (...) e Deus reinará para sempre sobre eles”. Esse tipo de fé é imprescindível para sustentar a caminhada e luta de quem se dedica a viver na contramão do sistema opressor, no nosso caso, o sistema do capital, pois mostra que vale a pena ser pessoa justa e dedicar-se à construção de uma sociedade justa, solidária, ecumênica e sustentável ecologicamente, o que passa necessariamente pela superação do capitalismo, máquina de moer vidas humanas e vidas de todos os seres vivos.

Isso é verdadeiro, libertador e, certamente, não exclui a fé e a esperança na imortalidade pessoal de cada justo, que se expressa em muitos Salmos e no próprio Livro de Jó: “Eu sei que o meu Redentor está vivo e que no fim se levantará acima do pó. (...) Eu mesmo o verei e não outro; eu o verei com meus próprios olhos” (Jó 19,25.27). A fé em Deus, que nos ama e nos quer dar a imortalidade, é uma aposta que vale a pena ser feita! Apoia-se na convicção de que Deus é justo, e “criou a pessoa humana para ser incorruptível e a fez à imagem da sua própria natureza.” (Sab 2,23).

Em Sab 3,13-4,6, o autor da Sabedoria dessacraliza a concepção judaica segundo a qual a reprodução da família judaica se dava através da produção de filhos, por meio dos quais continuaria a herança dos pais. Em ambiente de intensa idolatria e exploração da dignidade humana, o sábio alerta que é melhor ser estéril do que gerar filhos opressores, adeptos da ideologia dominante. Casar com filho de família opressora pode corroer a fina flor da experiência de fraternidade do povo. É o que atesta Sab 3,13. Em Sab 4,1 o sábio autor aponta a alternativa sensata a não ter filhos: “É melhor não ter filhos e possuir a virtude, porque a memória da virtude é imortal...” (Sab 4,1). Aqui o livro da Sabedoria faz uma “revolução copernicana”: não mais o simples reproduzir a prole para se ter futuro, mas cultivar virtude, ou seja, ser pessoa justa segundo um conhecimento que liberta - o que não é, logicamente, a ideologia dominante, mas são saberes que envolvem as pessoas na luta pelo bem comum sem discriminar ninguém e nada.

As pessoas injustas se tornarão para sempre cadáveres desonrados e objetos de zombaria entre os mortos (...) e a memória delas desaparecerá” (Sab 4,19). Ao contrário, as pessoas justas, mesmo que tenham vida curta, “quando morrem, condenam os injustos que continuam a viver” (Sab 4,16). Assim acontece com todos os/as oprimidos/as da história: fazem história e permanecem na história os que são justos e militam na defesa da justiça, no sentido da construção do bem comum para todos sem nenhuma discriminação ou privilégio. “Os justos vivem para sempre” (Sab 5,15), assevera o sábio autor da Sabedoria. Possuído pela ira divina, o sábio antevê que nas contradições assumidas pelos injustos e opressores “eles serão devastados e a própria maldade deles derrubará o trono deles” (Sab 5,23), pois o projeto dos opressores é um projeto de morte, assassino e suicida.

Em Sab 6,1-11 o sábio autor aponta que os governantes devem governar com justiça, que é: defender os empobrecidos e injustiçados diante daqueles que os exploram. A responsabilidade das autoridades é muito grande, pois das decisões delas depende a vida do povo. Todos serão julgados proporcionalmente, de acordo com a repercussão social das suas ações. As autoridades terão julgamento divino implacável (Sab 6,5), pois das decisões delas dependem a vida e a liberdade do povo. O Deus de Sabedoria não é neutro, pelo contrário, coloca-se explicitamente ao lado dos injustiçados: “Os pequenos serão perdoados com misericórdia, mas os poderosos serão examinados com rigor” (Sab 6,6.8).

O autor demonstra que a Sabedoria não é acessível apenas aos ricos e estudados, mas ela é democrática e acessível a todos, pois nascemos e nos despedimos desse mundo de forma semelhante: nus, sem trazer e sem levar nada (Cf. Sab 7,6). O sábio é aquele que prefere a sabedoria e não cetros e tronos; é aquele que considera a acumulação capitalista como palha que o vento leva e o fogo devora (Sab 7,8-9). Por essa perspectiva, em uma linguagem atualizada, podemos afirmar que a pessoa sábia não se deixa conduzir pelas seduções da sociedade capitalista, não dedica a vida a acumular riqueza e gozar poder, mas vive e convive de forma simples e austera, sendo assim coerente com o projeto do Deus da vida que quer vida e liberdade em abundância para todos/as e tudo.

O autor do Livro da Sabedoria compreende que o “senso comum” disseminado pelos injustos domina a consciência da maioria das pessoas. Em uma linguagem atual, podemos dizer que a ideologia dominante e hegemônica tem muito poder, conforme nos ensina István Mészáros, falecido dia 02 de outubro de 2017: “A ideologia dominante tem uma capacidade muito maior de estipular aquilo que pode ser considerado como critério legítimo de avaliação do conflito, na medida em que controla efetivamente as instituições culturais e políticas da sociedade.[1]

Enfim, o sentido da vida está em ser pessoa justa e, por isso, comprometida com as lutas libertárias dos povos injustiçados. Os injustos como palha no fogo desaparecerão da história. Feliz quem não se deixa seduzir pelo canto da sereia do sistema do capital que reduz tudo a mercadoria e aniquila o humano que clama para ser cultivado em nós.

[1] MÉSZÁROS, István. 1996, p. 15.

Referências Bibliográficas

MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia. São Paulo: Ensaio, 1996.

Gilvander Moreira
é frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG, autor de livros e artigos.
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