29 Mai 2018 | domtotal.com

Chile: a pedofilia e a verdade que liberta

Por ser tão grave, não pode ser tratado com medidas paliativas. Há que reconhecer o erro, pedir perdão e procurar reconstruir integralmente o que foi destruído.

Juan Carlos Cruz (esquerda) fala em entrevista coletiva ao lado de outras duas vítimas de abuso por padres em Roma, no começo de maio
Juan Carlos Cruz (esquerda) fala em entrevista coletiva ao lado de outras duas vítimas de abuso por padres em Roma, no começo de maio (Reuters/Stefano Rellandini)

Por Maria Clara Bingemer

A Igreja do Chile vive tensos momentos. Depois de seguidas denúncias de abusos sexuais por parte de sacerdotes e o encobrimento das mesmas por membros da hierarquia católica, o Papa Francisco foi procurado pelas vítimas. Em um primeiro momento não aceitou as denúncias por considerá-las falsas. Uma vez convencido por seus emissários que investigaram os fatos in loco, constatou que havia sido mal informado, pediu perdão às vítimas e convocou todos os bispos do país a Roma.

A reunião entre os bispos e o Papa foi dura, dolorosa, mas franca e transparente. Ao final da mesma, a Igreja e o mundo se surpreenderam ao saber que todos os bispos se colocaram à disposição do pontífice para que atuasse com toda liberdade quanto ao futuro deles. Trata-se de algo inusitado em termos eclesiais. E por isso não se sabe o desfecho que terá.

Quem permanecerá? Quem sairá? Quem será confirmado na missão que desempenha agora? Quem deverá deixá-la? Sobre isso nada se sabe. Sabe-se, porém, que neste tema tão tenebroso da pedofilia na Igreja pela primeira vez as feridas são expostas sem complacência ou meias medidas. O processo poderá ser muito difícil, mas existe uma real oportunidade de sanar o futuro.

Desde o momento em que constatou claramente que as vítimas diziam a verdade com suas denúncias, Francisco atuou de forma transparente. Ao reunir-se por três dias com os bispos chilenos, entregou-lhes um documento de dez páginas. Nele, não poupava expressões e chamava as coisas pelo nome: negligência, omissão, erros graves, vergonha. Os bispos refletiram sobre o que lhes era dito e chegaram conjuntamente à posição de deixar o Papa decidir e agir com toda liberdade

Não é de hoje que o fantasma da pedofilia assombra a Igreja Católica. Todos recordamos o drama que Bento XVI teve que enfrentar logo no início de seu pontificado. O caso do Chile soma-se a essa lamentável lista de escândalos que fragiliza o tecido eclesial e a credibilidade da instituição. Por ser tão grave, não pode ser tratado com medidas paliativas. Há que reconhecer o erro, pedir perdão e procurar reconstruir integralmente o que foi destruído.

O gesto dos bispos é admirável em sua radicalidade. Agradecem às vítimas por haver, com suas denúncias, permitido que a verdade venha à luz. Elogiam sua perseverança e coragem ao expor publicamente suas feridas e persistir em tentar ser ouvidos em meio às incompreensões e ataques inclusive da comunidade eclesial. Pedem perdão à Igreja como um todo e particularmente à do seu país. Agradecem ao Papa sua escuta paternal, sua correção fraterna e o honesto diálogo que com eles manteve.

Admirável igualmente foi a atitude de Francisco. Se em um primeiro momento não aceitou as denúncias por considerá-las falsas, não deixou de mandar apurar e investigar os fatos. E uma vez constatada a pertinência do que diziam as vítimas, teve a coragem de pedir perdão e mudar sua decisão.

Por mais chocante que pareça todo o acontecido, na verdade, o decurso de todo o processo deixa perceber claramente a força do Espírito que conduz à verdade e é verdade em si mesmo. Já diz a Escritura que o outro nome do demônio é Pai da mentira. Tudo que é falso, camuflado, encoberto não vai na direção da justiça, da paz e do amor. Entra, pois, em rota de colisão com a Boa Nova que o Evangelho traz e não sintoniza com o projeto do Reino de Deus.

É preciso, pois, romper. E foi essa ruptura – dura e dolorosa – mas poderosamente sanadora que aconteceu. Aconteceu no confronto do qual foram personagens as vítimas dos abusos, os bispos chilenos e o Papa. Aconteceu na percepção de Francisco de onde estava a verdade que urgia que se corrigissem rumos e tomassem medidas enérgicas. Aconteceu na abertura sincera dos bispos que renunciaram a controlar seu destino e o puseram em mãos do Papa.

De fato, com tudo que tem de sombrio, trata-se de um evento luminoso. Finalmente está para sempre banida a secreta convicção de que o clericalismo que ainda habita a Igreja protege os abusadores, confiantes no silêncio das vítimas. É evidente que estas não mais estão dispostas a calar seu sofrimento e o dano que lhes foi feito. Isso permite esperar para as novas gerações um clero mais responsável e adulto. Igualmente um episcopado mais cuidadoso na formação de seus seminaristas e mais vigilante sobre o que se passa em suas comunidades.

Fica claro igualmente que quando se busca com sinceridade o caminho do bem, o medo é vencido e emerge a honesta disposição de reparar os erros cometidos. Mesmo que não seja fácil, que isso implique viver momentos de incerteza e de insegurança, confiando apenas na misericórdia divina.

O que sucede neste momento com a Igreja do Chile permite esperar tempos melhores com respeito às relações intra eclesiais. A pedofilia acontece em todos os setores da sociedade. Não é prerrogativa da Igreja Católica tê-la em suas fileiras. No entanto, talvez o modo como essa mesma Igreja, sob a direção do Papa Francisco, está administrando algo tão conflitivo possa ser um testemunho que ajude a sociedade como um todo ao deparar-se com o mesmo problema.

Se. como disse Jesus Cristo, só a verdade liberta, parece que há reais motivos para celebrar o processo libertador que hoje vive a Igreja do Chile.

Maria Clara Bingemer
é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.
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