14 Jun 2018 | domtotal.com

Uma nova chance à paz

Mesmo transpirando simpatia durante a cúpula, Trump e Kim continuam sendo como água e óleo.

Apesar de tudo, o diálogo entre os dois líderes deve ser aplaudido.
Apesar de tudo, o diálogo entre os dois líderes deve ser aplaudido. (SAUL LOEB / AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

O encontro de cúpula entre o presidente americano Donald Trump e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, em Singapura, sacudiu o noticiário internacional esta semana. Cada qual com seu penteado, os dois antagonistas deixaram a rivalidade de lado e conseguiram assinar um acordo no qual o coreano promete suspender seu programa nuclear.

Após a histórica reunião, Kim garantiu que os dois países “decidiram deixar o passado para trás” e que “o mundo verá uma grande mudança”. O documento assinado inclui a devolução dos restos mortais de americanos mortos durante a Guerra da Coreia. O acordo, no entanto, não define como se dará o desarmamento.

Mesmo transpirando simpatia durante a cúpula, Trump e Kim continuam sendo como água e óleo. Os Estados Unidos se arvoram xerifes da democracia, enquanto a Coreia do Norte representa o que há de mais atrasado em termos políticos. Trata-se de uma ditadura sanguinária, influenciada por Moscou e exercida pela mesma dinastia há três gerações.

A contrapartida americana no acordo seria a suspensão do embargo econômico, mas a questão dos direitos humanos não foi abordada. Enquanto isso, Trump não quis assinar um recente tratado econômico com os países do G-7, insiste em cancelar o acordo nuclear com o Irã e se recusa a suspender o embargo a Cuba.

Apesar de tudo, o diálogo entre os dois líderes deve ser aplaudido, uma vez que o fim da ameaça de um confronto nuclear ameniza a tensão mundial, sobretudo na península coreana. Kim já havia dado um passo nesse sentido, em recente encontro com o líder da Coreia do Sul, Moon Jai-in. Este intermediou a reunião com Trump, mas é quase certo que a China também tenha mexido os pauzinhos.

De pai para filho

Por um longo período, o território coreano foi dominado pelos chineses. No século XIX, tornou-se palco das disputas sino-japonesas. Em 1897, o país deixou de ser reinado para se tornar império. Contudo, em 1910, o Japão o transformou em colônia. No final da Segunda Guerra, em 1945, os japoneses foram derrotados pelos EUA e União Soviética, que dividiram a Coreia ao meio. Os comunistas ocuparam a parte Norte e os americanos, o Sul, abaixo do paralelo 38 N.

Em agosto de 1948, foi fundada a República da Coreia, na parte Sul. Seu presidente, Syngman Rhee, pretendia ter jurisdição sobre todo o país, mas um mês depois foi proclamada em Pongyang a República Popular Democrática da Coreia (do Norte), sendo esta governada por Kim Il-sung, herói da resistência contra a ocupação japonesa. Em 1950, teve início a Guerra da Coreia, sendo o Norte apoiado por Moscou e Pequim, e o Sul pela ONU e os EUA.

O conflito terminou após a assinatura do Tratado de Pamunjon, em 1953, sem que nenhum dos dois lados saísse vencedor. Mesmo assim, a rivalidade continuou e os dois governos só foram reconhecidos internacionalmente em 1972. Kim Il-sung governou a Coreia do Norte até sua morte, em 1994, sendo sucedido pelo filho, o ex-primeiro ministro Kim Jong-il. Após a morte deste, em 2011, o poder foi passado a seu filho, Kim Jong-un, o “homenzinho-foguete” – nos dizeres de Trump.

Queiramos ou não, o encontro desta semana representa o início de um novo capítulo na história das duas Coreias e na busca pela paz na região. No entanto, seria ingenuidade acreditar no total desarmamento da Coreia do Norte. Até porque, foi justamente o receio de um confronto nuclear que levou Trump a descer de sua arrogância para dialogar com Kim.
 

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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