29 Jun 2018 | domtotal.com

Brasil junino

Junto com a fogueira, o coração chega a arder!

Viva Santo Antônio, São Pedro e São João!
Viva Santo Antônio, São Pedro e São João! (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

O Brasil não é o país do carnaval, mas da festa junina. Tudo bem que o feriado do rei Momo é muito popular e celebrado de diversas formas, desde os bonecos de Olinda aos bloquinhos de São Paulo, passando pelo desfile do Rio. Contudo, há muita cidade e lugarejo que nem dá notícia disso. Já em junho... Ah! Viva São Pedro, Santo Antônio e São João!

Quem vive nas grandes capitais talvez não tenha dimensão disso. Há nomes que são recorrentes pelo interior do país, de Norte a Sul, como Descampado, Matinha, Mata, Souza, Cruzeiro, Capelinha etc. São lugarejos, arraiais, vilas. Lugares que ninguém se fantasia para brincar carnaval, mas que costumam acender a fogueira para dançar e comer em junho.

Nossa industrialização é tardia e há esforços em manter aquilo que chamam “vocação agrícola”. Nosso país é predominantemente rural. Ainda há muita dificuldade para que a tecnologia chegue ao campo e seja acessível ao pequeno produtor. Avanço tecnológico e desenvolvimento agrícola tardam em caminhar juntos e de modo equilibrado. Sequer valorizamos suficientemente a agricultura familiar. Ao invés disso, forças querem manter o campo atrasado.

A menor influência da estrutura industrial e urbana favorece que culturalmente sejamos mais interioranos, sertanejos. Isso não é ruim, apenas uma característica que explica fatos como o sucesso da música caipira e sertaneja, que não sai de moda. Houve renovações paradigmáticas, como aquelas que aconteceram no auge de duplas como Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo; mais tarde, com o tal sertanejo universitário e, atualmente, na mescla do gênero com outros ritmos como pagode e funk. O que importa é que o sertanejo se mantem, principalmente porque tem a ver com nossa vivência como povo marcado pela lógica campesina, mesmo que as letras não tratem da vida na roça.

As festas juninas são, sobretudo, festas rurais e tem suas origens nas festas pagãs pela fertilidade das terras no hemisfério norte e, posteriormente, encontraram eco nas festividades indígenas da América ligadas à agricultura. A Igreja só cristianizou as datas que não podiam combater. Essa mescla culminou em um mês de festas que desdobram no outro mês. Elas se tornaram também julinas e há quem proclame as agostinas. Sua força é tão grande que se estendem por mais que dois meses e por todos os seguimentos, desde escolas a associações de bairro, desde empresas a famílias.

O engraçado é que, mesmo sendo um povo rural, nas festas juninas criamos uma caricatura de nós mesmos com roupas remendadas e um jeito exageradamente capiau. Talvez essa seja uma forma de acolhermos, pelo humor, isso que nos constitui e que não valorizamos. Ainda temos vergonha do que somos, de sermos um povo do campo ou que tem nele suas origens. Contudo, ao mesmo tempo que se faz troça com a própria caipirisse, há um sabor de saudosismo e melancolia toda vez que se canta ou conta sobre a vida no interior, como lugar de integração com a natureza, onde a unidade e carinho da família é forte e a comunidade se ajuda mutuamente.

E é isso que buscamos nas festas juninas, diferentemente do carnaval. A folia carnavalesca quer se esbaldar em excessos luxuriantes ou no desbunde fulgurante de cores e brilhos. Em junho se que estar junto, dançar com par e em grupo, numa roda coordenada e harmônica; quer-se comer comida quentinha no frio ou frescor da noite, aquecido pela fogueira. Festa junina é festa comunitária de alegria e afeto. Sim, há muito afeto no cural e na canjica que são receitas de família. Há afeto nos meninos com barba desenhada com lápis-de-olho e nas meninas de trança e pintinhas no rosto. Há afeto até pelo "pingaiados" de cada comunidade, gente meio insana, mas marcante em cada bairro e que, antigamente, corria atrás dos meninos, fazendo a festa da molecada que sentia medo e alegria com a brincadeira, sempre vigiada pelos pais: "Vai bobo, vai mexer com ele! Depois ele te pega e quero ver só!". Junto com a fogueira, o coração chega a arder!

Festa Junina da Sapucaí

No dia 30 de junho, a Rua Sapucaí, em Belo Horizonte, será transformada numa verdadeira quermesse com programação gratuita e a céu aberto, unindo duas paixões dos mineiros: gastronomia e diversão. O Circuito Sapucaí em sua terceira edição terá o formato de Festa Junina cheia de atrações:

  • Espaço kids com cama elástica 
  • Brincadeiras tradicionais: boliche de latas, rabo do burro e pescaria
  • Feira de produtores, com participação do BH Wine, Made in BH e Copo Café
  • Atrações musicais com o tradicional forró pé de serra 
  • Várias barraquinhas de comidas e bebidas oferecendo pratos, petiscos e drinks
  • Bingo

Serviço

Festa Junina da Sapucaí
Data: sábado, 30 de junho
Horário: 12h às 20h
Local: Salumeria Central (Rua Sapucaí, 527 - Floresta)
Entrada gratuita
Informações: Salumeria Central

Gilmar Pereira
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, graduado em Filosofia pelo CES-JF e em Teologia pela FAJE. Apaixonado por arte, cultura, filosofia, religião, psicologia, comunicação, ciências sociais... enfim, um "cara de humanas". Escreve às sextas-feiras.
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