24 Jul 2018 | domtotal.com

Estrangeiro a mim

O humano que rompe com a harmonia de suas relações está desprovido de sua própria humanidade e, portanto, apartado de si.

Olhar para o que se pode ser e dar-se conta de como se é gera o sentimento de estar distante do que mais lhe é próprio, gera desolação.
Olhar para o que se pode ser e dar-se conta de como se é gera o sentimento de estar distante do que mais lhe é próprio, gera desolação. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Das orações aprendidas na infância, a Salve-Rainha é uma das mais intrigantes. Tem umas expressões difíceis de serem entendidas e que mais tarde, quando se fica mais velho, mostram-se duras. Dentre elas, destaca-se a expressão “depois desse desterro, mostrai-nos Jesus”. A vida que se leva na terra é vista como um desterro, porque a pátria definitiva seria o céu. Estaríamos numa terra que não é a nossa.

Atentando para o sentido mais antropológico ou existencial da oração, vale ressaltar a experiência do desterro. Embora a palavra designe expatriação ou exílio, seu sentimento não é exclusividade de um migrante – ainda que nele a experiência seja bem mais drástica e com impactos objetivos. De alguma forma, o humano conhece bem a sensação de estar deslocado, sem terra, sem chão, sem solo, (daí) desolado. Por isso a oração também diz dos “degredados filhos de Eva”.

Degredo é sinônimo de desterro. Tomando a história da Origem (Gênesis), vemos a humanidade que rompe com o paraíso primordial, quando vivia em comunhão e harmonia com o restante da criação e com o Criador. Com a unidade rompida, a humanidade fica sem seu chão, desolada. Urge lembrar que, moldada do solo, do barro da terra, ao estar desterrada, está apartada inclusive de si. Os filhos de Eva são desterrados porque estão cindidos em suas relações e apartados de si mesmos. É como se na vida errassem por caminhos em busca de sua própria origem, de quem são. O humano que rompe com a harmonia de suas relações está desprovido de sua própria humanidade e, portanto, apartado de si.

De fato, muitas vezes olhamos para nós mesmos e, dando-nos conta daquilo que podemos e de como gostaríamos de ser, notamos nossa limitação e incapacidade de realizar tamanho projeto, de alcançar a plenitude das próprias potencialidades. Dessa incompatibilidade surge certo descontentamento como se estivéssemos vivendo uma vida que não é nossa, habitando uma terra que não é nossa casa. Olhar para o que se pode ser e dar-se conta de como se é gera o sentimento de estar distante do que mais lhe é próprio, gera desolação.

Sabemos quem somos. Sabemos de nosso melhor e por isso temos saudades disso que, às vezes, nem vivemos. São saudades dessa terra que nos constitui e da qual nos apartamos. Às vezes o exílio se dá em terras próximas onde a cultura não é tão diferente; outras, a estranheza é nítida. Quando, contudo, o processo de inserção e de acolhida acontece, deixa de se ser meramente expatriado para se ser cidadão. Quando acolhemos quem somos, mesmo percebendo a distância daquilo que gostaríamos de ser, passamos por um processo positivo de apropriação que faz desse novo lugar algo inteiramente nosso, não somos mais estranhos ou estrangeiros a nós mesmos.

4ª Festa Peruana de BH

No domingo, 29 de julho, acontece em BH a 4ª edição da Festa Peruana, na avenida Getúlio Vargas, 1700, entre a rua Alagoas e avenida do Contorno, na Savassi. O evento será das 11h às 21h.

Em comemoração à Independência do Peru, celebrada no mês de julho no país, a festa contará com a típica gastronomia local, com os famosos ceviches e outras delícias típicas do país andino, além de cerveja Wäls, músicas, danças e artesanato. O espaço ainda terá shows, apresentações culturais e Espaço Kids para as crianças.

A venda de produtos terá valores de acordo com a tabela de preços dos expositores.

Troca de ingressos: 1kg de alimento não perecível dará direito a um ingresso

Informações: Festa Peruana

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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