09 Ago 2018 | domtotal.com

Em memória de Dona Beja

É lamentável que até hoje a antiga construção não tenha sido tombada pelo patrimônio, o que certamente teria evitado o atual impasse.

Absurdos como esse só ocorrem em países como o Brasil.
Absurdos como esse só ocorrem em países como o Brasil. (Ministério Público/Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

No mês passado, a imprensa noticiou que o Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Araxá tinha autorizado a demolição de um imóvel de 190 anos, em pleno centro da cidade. Nele teria morado a célebre personagem Dona Beja.

O prédio só não foi demolido devido ao prazo de 30 dias dado pelo juiz da 3ª Vara Cível da comarca, Rodrigo Caríssimo, para que o Ministério Público possa recorrer de sua decisão anterior – contrária a uma ação da promotoria pela preservação do imóvel. A contagem regressiva está quase no fim.

Absurdos como esse só ocorrem em países como o Brasil, onde as autoridades ignoram a história e raramente se preocupam com a memória nacional. É lamentável que até hoje a antiga construção não tenha sido tombada pelo patrimônio, o que certamente teria evitado o atual impasse.

Araxá é uma das principais cidades turísticas da Mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Com pouco mais de 103 mil habitantes, é famosa por suas fontes de águas termais e pelo Grande Hotel, que funcionou como cassino até o presidente Eurico Dutra proibir o jogo no país, em 1946.

O imóvel em questão fica na Praça Coronel Adolpho, perto do Museu Dona Beja. Mesmo abandonado, mantém na fachada a placa da Pensão Tormin, que ali funcionou por vários anos. A propriedade pertence aos donos de um hospital, que planejam construir um estacionamento no terreno.

Só depois da polêmica e dos riscos de demolição foi que o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG) se mobilizou para fazer um estudo a respeito do imóvel, visando garantir a preservação. Ali poderia funcionar um centro cultural com teatro, cinema, café e galeria de arte. Tudo a ver com a vocação turística do município! 

Personagem histórica

Para quem não sabe, Ana Jacinta de São José nasceu em Formiga, em 1800. O apelido de Beja foi-lhe dado pelo avô. Segundo consta, ela foi uma das mulheres mais belas do Império e isso levou o ouvidor do rei, Joaquim Inácio Silveira da Mota, a mandar sequestrá-la. O avô foi assassinado pelos soldados que a levaram.

A jovem foi conduzida à força até a Vila de Paracatu, onde foi forçada a se tornar amante de Joaquim. Depois que ele morreu, ela se mudou para Araxá, tornando-se amásia de homens poderosos em troca de joias e dinheiro.

O poder curativo das águas do Barreiro teria sido descoberto por ela, que sempre se banhava na Fonte da Jumenta, dizendo que esse era o segredo de sua beleza e juventude. Ana Jacinta morreu na cidade de Bagagem, no ano de 1873, mas Dona Beja entrou para a história de Minas, inspirando livros e novelas de tevê.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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