17 Ago 2018 | domtotal.com

O perfil das escolhas

Processos decisórios resultam das experiências de vida, de valores morais, espirituais e cívicos.

Nas eleições, as paixões políticas que fazem 'vista grossa' para certas atitudes de candidatos não devem prevalecer.
Nas eleições, as paixões políticas que fazem 'vista grossa' para certas atitudes de candidatos não devem prevalecer. (Reprodução/ Pixabay)

Por Dom Walmor Oliveira de Azevedo

A vida é um dom e, por isso mesmo, exige competência para discernir sobre que direção seguir. Saber discernir é, pois, uma arte que permite construir o bem viver. Trata-se de uma experiência humanística e espiritual, que impacta não somente a própria existência, mas o cotidiano de pessoas próximas. É, assim, fundamental reconhecer que as escolhas requerem responsabilidade, pois levam a vitórias ou a derrotas, dependendo da qualidade do discernimento.

Esses processos decisórios resultam das experiências de vida, de valores morais, espirituais e cívicos. Se forem qualificados, possibilitam avançar rumo ao bem e à justiça. Mas, se os equívocos prevalecem, tempo e esforços são necessários para recuperar as perdas. Importante perceber: tudo depende das escolhas e, nesse sentido, o exercício da cidadania merece atenção especial. Cada pessoa precisa ter clareza para escolher o que gera equilíbrio e impulsiona rumo a avanços muito necessários.

Opções inadequadas são especialmente lastimáveis quando ocorrem por falhas na formação humanística e no exercício cidadão. Quando se toma uma direção equivocada, as perdas são inevitáveis e o peso recai sobre os ombros de muitos. É necessário refletir, por exemplo, a respeito dos prejuízos sofridos pela sociedade brasileira ao longo da história, provocados por quem deveria exercer a representatividade e servir ao povo.  Sucessivas crises submetem a população ao sofrimento e ameaçam, principalmente, a vida presente e futura dos mais pobres. Vida que se constrói, ou se destrói, conforme a qualidade das escolhas. Essa verdade vale para as relações no âmbito doméstico, na esfera familiar, mas também incide nos domínios da esfera profissional, governamental e tantas outras. Por isso, ainda mais graves são as escolhas equivocadas de quem tem o poder de decidir, representando uma grande coletividade.  Dependendo das decisões, torna-se inviável o atendimento de demandas urgentes.

Não menos importante é refletir a respeito das escolhas pessoais, de cidadãos comuns, sobretudo no horizonte deste ano eleitoral, quando a sociedade tem a desafiadora tarefa de eleger candidatos para dar novos rumos ao país. A exigência é encontrar, entre os que vão se submeter às urnas, quem tem a sensibilidade humanística para identificar as reais necessidades da nação. Essa responsabilidade cidadã de votar bem não é algo simples, pois, nesse processo, é insuficiente a atitude de orientar-se apenas por convicções pessoais. A escolha de candidatos é uma dinâmica que exige a articulação de muitos elementos.  Um exercício de discernimento que busca perceber, nos que disputam as eleições, os parâmetros morais indispensáveis para que, no futuro, se eleitos, não negociem o que é inegociável, sejam sempre promotores do bem comum e da justiça.

Nas eleições, as paixões políticas que fazem “vista grossa” para certas atitudes de candidatos não devem prevalecer. A vitória de partidos não é o que importa. O essencial é a opção por pessoas e propostas orientadas por sólidos parâmetros humanísticos. Assim, será possível escolher adequadamente, ajudando a sociedade a trilhar novos rumos. Com um maduro processo de discernimento, os cidadãos conseguirão identificar - e rejeitar - candidatos interessados apenas em seus projetos pessoais, em defender partidos e apoiadores, abraçando objetivos pouco nobres - ancorados na mediocridade.

Compete ao eleitor assumir a exigente responsabilidade de se dedicar às análises, buscar conhecer melhor o cenário político, identificar bem os perfis dos candidatos, para poder confiar seu voto a quem, de fato, merece: homens e mulheres humanisticamente competentes, capazes de cumprir o que se propõem a fazer. O momento atual pede acertadas escolhas, para que a sociedade brasileira construa um futuro melhor.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
O arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, é doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (Itália) e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma (Itália). Membro da Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé. Dom Walmor presidiu a Comissão para Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante os exercícios de 2003 a 2007 e de 2007 a 2011. Também exerceu a presidência do Regional Leste II da CNBB - Minas Gerais e Espírito Santo. É o Ordinário para fiéis do Rito Oriental residentes no Brasil e desprovidos de Ordinário do próprio rito. Autor de numerosos livros e artigos. Membro da Academia Mineira de Letras. Grão-chanceler da PUC-Minas.
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