19 Ago 2018 | domtotal.com

Para casais em crise

Dentre os resultados mais comuns dos mal-entendidos está o diálogo na base do grito.

"Peça do Casamento" tem sua estreia nacional em BH (Fernando Young/Peça do Casamento/Divulgação)

Por Gilmar Pereira

Há uma distância entre o que se quer dizer, o que se diz, o que o outro entende e como este se sente diante disso. Compreender a diferença entre uma coisa e outra impede que muitos conflitos nos relacionamentos sejam evitados. Portanto, não basta ter cuidado com a própria fala, mas também há de se suspeitar também do que se ouve.

É muito comum que casais briguem pelos equívocos que surgem nessas distâncias. Um quis dizer uma coisa e expressa mal. O outro, já marcado por fatores diversos, recebe o que ouve à sua maneira. Pronto! Disso decorre uma série de acusações e deturpações que geralmente acabam mal.

Dentre os resultados mais comuns dos mal-entendidos está o diálogo na base do grito. Parece que as diferenças fazem com que os corações, não se identificando mutuamente, acabem por se distanciar. Algumas vezes até mesmo para se proteger. Daí, longe um do outro, os debatedores bradam para que o distante seja capaz de ouvir. Se uma conversa é feita de voz alta é porque as partes estão longe.

O grito também serve para impor, marcar uma presença que se sente apequenada e precisa crescer. Algo similar acontece com as ofensas e deméritos proferidos. Se uma das partes se sente menor, impossibilitada de crescer, buscará diminuir a outra. Por isso muitas relações baseadas na dependência tendem a usar a ferramenta da diminuição, menosprezo, ridicularização ou culpa para que a grandeza alheia não resulte numa liberdade tal que rompa com a necessidade doentia pelo outro, que este possa um dia partir. Diminuir para gerar dependência é ferramenta conhecida de relacionamentos doentes.

Nesse sentido é que cabe sempre perscrutar o próprio coração e suspeitar de si mesmo. O que realmente disse? O que queria dizer? Porque queria dizer? Não raro somos capazes de manipulações do sentimento alheio seguidas de mentiras a nós próprios acerca de nossas intenções. É que precisamos de uma autoimagem boa e somos condescendentes com nossos erros. Mentir a si garante um melhor modo de culpar o outro e, consequentemente, não ter que mudar, melhorar ou crescer. A doença de um casal pode advir da enfermidade de um dos pares.

Se de uma parte, cada qual é responsável por aquilo que diz, de outra parte também é verdade que não se pode atribuir tamanha responsabilidade sobre aquilo que o outro entende ou sente. Há vezes que uma fala desperta feridas recalcadas, suscita sentimentos dos quais não se é responsável. Como diz o ditado, “gato escaldado tem medo de água fria”. Existem pessoas demasiado sensíveis que interpretam falas e ações como se sempre estivessem sendo atacadas. Alguns casos chegam a ser paranoicos, buscando ler sentidos por detrás de tudo.

Uma conversa sadia buscar deixar claro o que se quer, sabe reconhecer o que se está sentido e se tem em mente para onde o rumo das coisas está caminhando. De tal forma que, antes de acusações e defesas, a conversa seja marcada por frases como: “Quando você disse isso, senti-me assim”; “Para mim, isso significa tal coisa, por isso fiquei de tal modo diante de sua ação”; “O que você queria fazer? Sua intenção era essa?”; “E a partir de agora, o que faremos?”; “Como podemos resolver ou melhorar nossa situação”.

Estar consciente dos sentimentos suscitados e suas origens, aclarar os fatos que geraram conflito, reconhecer o erro; pedir perdão e propor uma emenda de vida ou novo caminho são passos simples, mas que resultam numa relação sadia. Por último, mas não menos importante, após uma proposta factível e objetiva para melhorar o relacionamento, cabe sempre sua celebração. Se algo fere o sentimento e aparta corações, aproximar os corpos permite que se reatem os afetos. Para isso serve um aperto de mãos, um abraço ou um beijo. O calor do contato derrete do gelo que anestesia o coração, paralisa a mente, expande egos e racha a relação. O fogo que derrete é o mesmo que une.

Peça do Casamento

Edward Albee faz do embate entre um marido e uma esposa um jogo de metalinguagem sobre o gênero “peça de relacionamento” nesta sua ácida “Peça do Casamento”.

Após trinta anos juntos uma crise obriga um casal a revisar suas vidas e assim aprender algo sobre si mesmos e sobre o outro.

SERVIÇO

Data: 16/08 a 03/09/2018
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários
Horário: 20h, Dia 19 às 16h e dias 26/08 e 02/09 sessão às 17h
Classificação etária: 14 anos

Direção: Guilherme Weber.
Elenco: Eliane Giardini e Antônio Perez Gonzalez.

Informações: CCBB-BH

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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