20 Set 2018 | domtotal.com

Ler para entender


Cena de 'Axexê da Bailarina', presente no Festival de Cenas Curtas.
Cena de 'Axexê da Bailarina', presente no Festival de Cenas Curtas. (Reprodução/ YouTube/ Rafael Pessoto)

Por Gilmar Pereira

Um dos grandes desafios no processo de alfabetização é guardar a memória recente do que foi lido. “T” com “I”, ti; “J” e “O”, jo, “L” com “O”, lo. E aí? O que está escrito? Ti... jo... lo. Ah! Tijolo! Há de se reconhecer letra por letra, entender as sílabas, formar a palavra e, por último, ligar a palavra àquilo a que se refere. Às vezes, quando se chega à última sílaba, o alfabetizando já se esqueceu qual era a primeira.

Depois de superada essa fase, precisará compreender a palavra no interior de uma frase. Por isso os livros infantis trabalham com frases curtas e objetivas, para que o entendimento possa ser claro. Lê-se “O”, lê-se “tijolo”, lê-se “é”, lê-se “de”, lê-se “barro”. São quatro palavras soltas que precisam de certo esforço da mente para que estejam conectadas: “O tijolo é de barro”. O mesmo processo fica mais complicado quando há de se entender a frase no âmbito do texto e o texto dentro do seu contexto, seja literário, seja o sociopolítico.

Assim, há uma progressão no processo de alfabetização que começa no reconhecimento de letras e culmina nas abstrações filosóficas, literárias e semióticas. Essa progressão de leitura caminha junto com a da escrita. E escrever pode ser algo demasiado complexo, principalmente quando se quer ampliar sentidos, provocar sentimentos, possibilitar ideias novas que não estão no texto. Para tanto, o autor deve escrever em camadas, utilizar de linguagem alta, aquela que coloca uma pluralidade de sentidos numa única frase ou conjunto de frases.

Quanto mais complexo o texto, mais tempo a ele deve dedicar seu leitor, não só perscrutando sentidos intelectuais, mas saboreando as sensações despertadas. O leitor precisa desnudar-se ante o texto, entrar nele livre e ouvi-lo por ele mesmo. Como diz o poeta, “penetra surdamente no reino das palavras”.

Mas não pense que a complexidade seja sinônimo de prolixidade. Usar palavras menos comuns do linguajar cotidiano não é o mesmo que escrever bem ou mesmo de ter maior profundidade. A pessoa pode estar sendo, apenas, pedante e rasa. Em compensação, um poema pode reconfortar o coração em poucas palavras e uma pessoa que não saiba bem a linguagem formal, em sua simplicidade, pode dar grandes ensinamentos que levam a longas meditações.

Um texto, em sua profundidade, sempre chama à meditação, à reflexão. Eis um problema em nossos tempos tão acelerados, em que se passa de um texto a outro em grande velocidade, sem tempo o suficiente para que se possa assimila-lo e aprofundar no seu sentido. Somos submetidos a um fluxo muito grande de informações, maior do que somos capazes de digerir.

Somada a essa dificuldade imposta pela lógica da velocidade, encontramos a limitação de leitura. Há uma grande quantidade de pessoas que têm problemas de leitura no seu nível básico, mais ainda os que não conseguem fazer uma justa interpretação de texto e muito maior os que não conseguem explorar multiplicidades de sentidos porque lhes falta cultura generalista e múltiplas referências.

O problema de leitura ultrapassa os textos formais e chega a outras textualidades, culminando no próprio texto da vida. Sim, a vida também precisa ser lida e sua boa interpretação é condição de possibilidade para sua melhor escrita. Vive melhor quem sabe ler a vida. Se alguém está acostumado à interpretação textual pode ter mais facilidade para análises de conjuntura.

Importa ressaltar que interpretar não é simplesmente opinar. Se alguém disser que a lua é de queijo, desconsiderando qualquer conhecimento científico, alegando que esta é sua opinião e que ninguém pode falar nada, tal opinião não tem valor nenhum. Opinião é diferente de conhecimento e se ela não tem fundamento algum, não só merece, mas deve ser desconsiderada.

Para se dizer algo sobre qualquer coisa, há de se buscar um mínimo de conhecimento e deter-se sobre ele, aprofundando e usando das ferramentas necessárias, como alguém que lapida uma pedra preciosa. Não basta ler um artigo da wikipedia, ver um video no youtube e achar que se conhecesse o suficiente sobre algo. As distintas áreas de conhecimento tem suas regras e há de se entrar no seu jogo de linguagem, entender o seus métodos, para que se possa produzir segundo cada uma e de fato poder dizer que as entende.

Tem muita gente falando de pesquisa eleitoral sem conhecer saber como se fazem estatisticas, taxando jornalistas de produtores de fake news sem distinguir o que é artigo de opinião de notícia, falando que nazismo é de esquerda sem entender história. Essas aberrações podem ser frutos de desonestidade intelectual, de má-fé. Outras vezes é a mais pura ignorância, fruto de leituras deficitárias ou mesmo ausentes. As pessoas precisam ler mais e, sobretudo, aprender a ler em maior nível de complexidade para melhores interpretações. Do contrário, serão apenas ignorantes com referências citando coisas aleatórias sem saber do que estão realmente falando.

A população passou a ter acesso às tecnologias de comunicação e informação, mas não tem as bases necessárias para produzir conhecimento e mesmo interpretar devidamente o que lê. Embora o número de pessoas que ascendem ao ensino superior tenha aumentado, carregam consigo deficiências da formação básica que não são supridas pela maioria dos cursos. Na melhor das situações, há gente especialista em sua área, mas ignorante no que toca o restante. Não raro encontramos médicos, advogados, engenheiros, professores etc., gente que sabem muito de suas áreas, mas são analfabetos políticos, ignorantes em economia, desconhecedores da História. Por se sentirem doutos, querem opinar sobre tudo sem ler ou lendo, sem entender ou entendendo no nível mais basal.

Talvez a solução esteja em corrigir as deficiências da base, correr atrás do prejuízo e começar a ler os clássicos. Precisamos de uma formação mais holísitica. Quem sabe sair de casa e frequentar mais museus, teatros, exposições? É preciso reaprender a ler.

Festival de Cenas Curtas

Uma das melhores maneiras de começar a reaprender a ler a realidade e lidar com a complexidade é frequentar o teatro. Embora os palcos do Brasil tenham sido praticamente tomados por besteirol, BH e outros centros ainda trazem uma forte resistência com peças de grande envergadura. Textos bem elaborados e encenações passeando em diversas linguagens permitem um ampliar da visão e compreensão de mundo. Nesse sentido, um dos eventos importantes da capital mineira é o Festival de Cenas Curtas, por colocar em cena uma pluralidade imensa de vozes e corpos.

Marcado pela diversidade de temas e urgências sociais, políticas e artísticas, o Festival Cenas Curtas, um dos principais espaços para experimentação em teatro no Brasil, chega à 19ª edição. O evento será realizado de 26 a 30 de setembro no Teatro Wanda Fernandes e no circuito conhecido como Corredor Leste, no entorno do centro cultural do Grupo Galpão, em Belo Horizonte. Com o objetivo de provocar e fomentar pesquisa de linguagem por meio de criações cênicas, a mostra busca oferecer as melhores condições técnicas aos participantes, ajuda de custo financeira e, ao sugerir que o festival é o espaço para o "risco e o erro", também pretende criar um ambiente acolhedor para se experimentar o novo.

Confira a programação completa em: www.galpaocinehorto.com.br/cenascurtas

Adquira ingressos em: Sympla

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina “A comunicação como evento teológico” na especialização “Desafios para a Igreja na Era Digital”.
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