13 Set 2018 | domtotal.com

Um país shakespeariano

O assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando e sua esposa, Sofia, em 28 de junho de 1914, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.

A história nacional está repleta de incógnitas.
A história nacional está repleta de incógnitas. (AFP)

Por Jorge Fernando dos Santos

A tentativa de assassinato do candidato Jair Bolsonaro, ocorrida em Juiz de Fora na quinta-feira passada, é só mais uma prova de que a teoria do homem cordial passa longe da nossa realidade. Resultado do fanatismo político, o incidente pode representar um tropeço na caminhada democrática.

Quando o radicalismo provoca atos extremos, abre-se caminho para a intolerância e o confronto. Foi o que ocorreu, por exemplo, em 1930. No dia 26 de julho daquele ano, o jornalista João Dantas matou a tiros o governador da Paraíba, João Pessoa. A tragédia passional serviu de pretexto para a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.

Vale lembrar que o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando e sua esposa, Sofia, em 28 de junho de 1914, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial. Gavrilo Princip, autor do crime praticado em Saravejo, era um jovem membro do grupo terrorista Mão Negra e talvez não tenha se dado conta das repercussões do seu ato.

Mesmo em países de tradição democrática, intolerância e violência muitas vezes caminharam ao lado da política. Nos Estados Unidos, por exemplo, os presidentes Abraham Lincoln e John Kennedy foram mortos a tiros em episódios que mudaram a história. Ronald Reagan também foi baleado, mas conseguiu sobreviver.

Dúvidas e mistérios

No Brasil, vários episódios mal esclarecidos poderiam ter desencadeado grandes tragédias. No início da década de 1970, os três principais opositores do regime militar – Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart – morreram misteriosamente no intervalo de um ano. O primeiro estava resfriado, tomou uma injeção num HPS e faleceu pouco depois.

JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, perderam a vida quando o Opala no qual viajavam se chocou de frente com uma carreta, na Via Dutra. O mais estranho é que dias antes, o próprio ex-presidente havia recebido o telefonema de uma amiga que teria ouvido no rádio a notícia do acidente.

João Goulart, por sua vez, morreu em sua fazenda, no Uruguai, oficialmente de problemas cardíacos. Décadas depois, um ex-agente da Operação Condor, preso por tráfico de drogas na fronteira com o Brasil, confessou tê-lo envenenado. Nada foi comprovado, mas não deixa de ser intrigante.

Acidentes aéreos

Em 1967, a morte de Castello Branco num inusitado acidente aéreo levantou suspeita de sabotagem. Pouco depois de deixar a Presidência, o marechal que prometera devolver o poder aos civis viajava para o Ceará quando um avião da FAB provocou a queda da sua aeronave. Não fosse isso, talvez o regime militar não tivesse se estendido por duas décadas.

Mais recentemente, as mortes do presidenciável Eduardo Campos e do juiz do Supremo Teori Zavascki, ambos em acidentes aéreos, também mexeram com imaginação popular. Em 2002, o assassinato do petista Celso Daniel, prefeito de Santo André, foi outro episódio coberto de mistério. Várias testemunhas do caso também morreram de forma inexplicável.

A história nacional está repleta de incógnitas. Do suicídio de Vargas ao golpe militar de 1964, da morte do presidente eleito Tancredo Neves ao desaparecimento de Ulisses Guimarães, o Brasil sempre foi um país shakespeariano. O atentado a Jair Bolsonaro comprova, mais uma vez, que há mais mistérios entre o céu e a Terra do que podem supor os brasileiros.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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