14 Set 2018 | domtotal.com

Facada na democracia

O clima de vitimização do suposto agredido, do suposto ato, sua frieza, e a indefesa reação do agredido podem comover as pessoas a ponto de convencê-las a votar na'vítima'.

Pouco se questiona, por que alguém esfaquearia Bolsonaro?
Pouco se questiona, por que alguém esfaquearia Bolsonaro? (@FlavioBolsonaro)

Por Marcel Farah

Após o atentado, ou suposto atentado, não sei ao certo, ocorrido contra o candidato a presidente da república no último dia 06 de setembro, o mais importante é entender quais os efeitos de ter um candidato esfaqueado em plena campanha. No caso específico, quem mais se beneficiaria em ter Bolsonaro esfaqueado?

Nos últimos dias a internet foi varrida pelo assunto que abafou todos outros acontecimentos. Quase não se fala mais do incêndio do Museu Nacional.

Contudo, o que move o debate é a veracidade ou não do atentado. Teria mesmo um homem conseguido penetrar a barreira de seguranças com uma faca? Por que neste dia o candidato não andava de colete a prova de balas, como comumente faz? Por que seu filho publicou precocemente nas redes sociais que o pai estava bem quando não estava? Por que não há sangue nas fotos, na faca, nas roupas? Por que os médicos do centro cirúrgico estavam sem luvas? Por que um designer fabricou uma imagem da camisa que Bolsonaro usava com um furo ensanguentado? Estas são as perguntas.

Entretanto, pouco se questiona, por que alguém esfaquearia Bolsonaro? Há questões que envolvem o suposto agressor, como sua página no facebook com publicações rapidamente alteradas, seu nome imediatamente divulgado pelos quatro ventos, sua banca de advogados caros, suas viagens em acompanhamento à campanha de Bolsonaro. Mas quase não se enumeram os motivos políticos.
Em se tratando de um candidato, durante uma eleição, é muito provável que o suposto crime tenha relações com a disputa.

Precipitadamente o vice de Bolsonaro, um militar da reserva que não tem o mínimo de receio de elogiar um torturador como Brilhante Ustra, acusou o PT. A acusação não tem nenhum fundamento, mas revela o sentido político do ocorrido. O tal general Mourão na ânsia de culpar seus adversários revelou o quanto um ato de violência contra um candidato pode ser canalizados em votos para o mesmo.

O clima de vitimização do suposto agredido gerado pela injustiça do suposto ato, sua frieza, e a indefesa reação do agredido podem comover as pessoas a ponto de convencê-las a votar na “vítima”.

Em outros momentos da história tais artifícios foram utilizados em benefício das vítimas, como o suposto atentado sofrido por Carlos Lacerda em 1954 que potencializou a escalada de ataques ao governo Vargas só interrompida com o suicídio do mesmo. Naquela situação, como hoje, o importante não é saber se foi real ou não o atentado, mas os efeitos políticos que teve o ocorrido.

Neste sentido faltaria interesse para qualquer concorrente do esfaqueado já que os resultados do ato prejudicaria as demais campanhas mais do que a dele.

Por outro lado, o que falta à Bolsonaro é o rosto humano de vítima, que não combina muito com sua peculiar agressividade e menosprezo pelos direitos humanos.

Portanto, o que nos resta frente ao noticiado ocorrido é ficar atentos quanto aos seus desdobramentos políticos. Deixemos de lado a discussão sobre a veracidade ou não da história e compreendamos que efeitos políticos ela pode gerar. Considerando inclusive que pode ser uma justificativa para suspender o pleito eleitoral. Ai sim, teríamos um atentado de morte, mas desta vez, e novamente, contra a democracia brasileira.

Marcel Farah
Educador Popular
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