11 Out 2018 | domtotal.com

A intolerância na sala de aula

Qualquer forma de manipulação ou cerceamento à informação deve ser rechaçada, em nome da liberdade e do desenvolvimento intelectual.

Luiz Puntel, autor do livro 'Meninos Sem Pátria'.
Luiz Puntel, autor do livro 'Meninos Sem Pátria'. (Divulgação)

Por Jorge Fernando dos Santos

Às vésperas do primeiro turno das eleições, causou polêmica nos meios literários a decisão do Colégio Santo Agostinho, do Rio, em “desadotar” o livro “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, publicado na coleção Vagalume. Lançada em 1981, a obra foi inspirada na trajetória do jornalista José Maria Rabelo, que se exilou com mulher e filhos no início dos anos de chumbo.

Segundo reportagem da revista Fórum, a decisão do colégio católico foi motivada pela página Alerta Ipanema – engajada na campanha do candidato Jair Bolsonaro. A postagem acusou o colégio de “doutrinar crianças do sexto ano com ideologia comunista em sala de aula”. A alegação absurda é a de que nunca houve ditadura militar no país.

Dono do jornal Binômio, em Belo Horizonte, durante o governo de João Goulart, Zé Maria reagiu à agressão de um coronel do Exército que invadira sua sala de trabalho querendo censurar uma reportagem. Depois de levar a pior, o oficial mandou a tropa destruir a redação do semanário.

O jornalista entrou na Justiça e foi indenizado. Quando veio o golpe militar, o jornal foi novamente depredado. Ameaçado, ele deixou o país clandestinamente. Refugiou-se no Chile, onde a família foi encontrá-lo. Depois da queda de Allende, foram para a França e só retornaram ao Brasil após a anistia. Zé Maria foi um dos fundadores do PDT, ao lado de Brizola.

A decisão do colégio carioca foi, sem dúvida, motivada pelo radicalismo e pela intolerância. Caberia à direção e aos professores conversarem com os pais sobre o assunto. Afinal, são eles que educam os filhos, pagam a escola e compram os livros. Talvez tenha faltado diálogo e reflexão. Prevaleceu a estupidez do revisionismo histórico. 

Escola sem Partido

Mas a faca tem dois gumes. Adeptos do politicamente correto já tentaram proibir Monteiro Lobato. O autor foi considerado racista por alguns, devido ao comportamento da personagem Emília. Em determinada história, a boneca desbocada chama Tia Anastácia de “negra beiçuda”. Tudo no contexto da narrativa, ressaltemos! Outros implicaram com o livro “Caçadas de Pedrinho” – sem levar em conta a realidade de uma época.

Falo no assunto por experiência própria, pois também já tive livros vetados. O romance “Sumidouro das almas”, por exemplo, foi excluído de uma lista de adoções depois que a avó de uma aluna de 17 anos do Ensino Médio reclamou de uma cena de estupro. Cena esta inspirada no clássico “Ana Terra”, de Érico Veríssimo, que li aos 13.

De outra feita, a diretora de uma rede de ensino recusou-se a receber um exemplar de “A medalha cigana”. Ela alegou que os pais não gostavam de ciganos e não aprovariam a leitura. Noutra ocasião, fui proibido de fazer palestras num colégio evangélico após um bate-papo com alunos, no qual eu critiquei o sistema de ensino e confessei minha desesperança no país.

Negar a ditadura é negar a história. Mas o que dizer da pedagogia que não reconhece os malfeitos da luta armada e os crimes praticados por regimes socialistas? Os cursos de humanas, em sua maioria, adotam filósofos de esquerda e ignoram os de outras correntes de pensamento.

Fato é que a ideologização do ensino é tão real no Brasil que até motivou o movimento Escola sem Partido. Numa democracia, o ensino deve ser laico e plural, jamais doutrinário – não importa se à esquerda ou à direita. Qualquer forma de manipulação ou cerceamento à informação deve ser rechaçada, em nome da liberdade e do desenvolvimento intelectual.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas