11 Out 2018 | domtotal.com

Bem aventurados os eleitores sem raiva

Conversar sobre política no Brasil nunca é só um exame racional dos fatos e dos discursos.

Tudo é sempre muito encolerizado. O debate raivoso sempre atrasa o avanço da democracia.
Tudo é sempre muito encolerizado. O debate raivoso sempre atrasa o avanço da democracia. (Reprodução)

Por Wagner Dias Ferreira

Com 19 anos, em 1988, depositei o meu primeiro voto na urna em eleições municipais. Faz 30 anos. Estava cheio de alegria e esperança. Havia participado ativamente na coleta de assinatura para algumas emendas de iniciativa popular para a Constituinte. Naquelas primeiras eleições, depois de promulgada a Constituição Cidadã, em meu primeiro período do Curso de Direito e envolvido com o movimento estudantil, eu realmente estava cheio de esperança.

Tinha visto o Movimento das Diretas Já, a morte de Tancredo Neves e a comoção social que tal fato ocasionou, inclusive ,com morte de pessoas nos portões do Palácio da Liberdade, em BH, para a despedida do Estadista.

Naquele ano de 1988, a pessoa em quem votei para prefeito não foi eleita. Mas a candidata a vereadora foi. O partido dela elegeu nove vereadores para a Câmara Municipal de BH, quase um terço do total. Era animador.

No ano seguinte, o aprofundamento nas atividades político-estudantis e o avanço no curso de Direito impulsionaram a participação na campanha presidencial, com grande frustração ao ver eleito o ex-presidente Fernando Collor. Houve, naquela campanha, uma grande encolerização. Não se discutiam argumentos, nem se faziam análises, era uma raiva ensurdecedora.

Eleito nesse contexto de raiva e de rejeição do que de compreensão de argumentos e propostas, houve novamente frustração. E, alguns anos mais tarde, retornou a alegria ao ver o impeachment. É isso! Vota-se com raiva, depois vem o arrependimento e o impeachment.

Na transição, veio o  Plano Real. A repercussão da foto do presidente Itamar ao lado de uma modelo no Carnaval. Foram fatores que povoaram as conversas políticas daquele tempo.

Conversar sobre política no Brasil nunca é só um exame racional dos fatos e dos discursos. Tudo é sempre muito encolerizado. O debate raivoso sempre atrasa o avanço da democracia.

O problema não é votar ou não votar em fulano ou sicrano. O problema é tratar todas as questões do momento conjuntural com calma e racionalidade.

Marx propôs um exame da sociedade de sua época mostrando ao longo da história quem eram os proprietários dos meios de produção de cada momento histórico. E, ao finalizar sua análise em plena revolução industrial, constatou que os trabalhadores da indústria, no processo de produção só podiam “alienar” no sentido de vender sua força de trabalho. Seu corpo. Vender para aqueles de famílias que sempre possuíram propriedades usadas para a produção de bens de consumo.

Muitos rejeitam Marx porque outras pessoas usaram seu método para criar formas de governo onde o Estado é o grande proprietário dos meios de produção. De certo modo, reproduzindo sociedades com privilégios, mas aqui privilégios para quem estava ligado a uma determinada ideologia.

A CNBB sempre propõe que os católicos utilizem o método ver, julgar, agir e celebrar. Tudo com vistas a mover o fiel a se comportar com critérios de fé e do evangelho.

As pessoas podem mudar o critério para examinar a sociedade. Não precisam usar o “materialismo histórico de Marx” nem o “ver, julgar, agir e celebrar” dos católicos. Mas algum critério de análise precisa ser explicitado. É preciso que os candidatos expliquem como compreendem os fenômenos brasileiros para assim compreendermos como resolverão esses problemas.

Essa é a disputa que está colocada nas eleições. Esses são os projetos que estão em disputa.

A raiva reduz a capacidade de raciocínio das pessoas e impede que tomem decisões esclarecidas para o pleito eleitoral.

Por isso, afastar a raiva e estabelecer critérios e métodos claros de análise dos fenômenos sociais permitirão um exame mais criterioso dos discursos e comportamentos dos candidatos afastando equívocos como aquele quando foi eleito Collor.

Meu critério de análise da sociedade é o católico, onde o principal meio de julgamento ou análise dos fenômenos é o discurso contido no Sermão da Montanha onde se lê as expressões “ouvistes o que foi dito...” e logo depois o “Eu porém vos digo...”.

Com esse critério é fácil discernir o candidato que fale de amor permanente ao próximo, aquele que jamais acaba, de fazer justiça social (bem aventurados os que têm fome e sede de justiça), e que tenha propostas para atender às necessidades das multidões, porque foi nessa ocasião em que Jesus multiplicou os pães e peixes para alimentar milhares de pessoas e assim fazer uma escolha lúcida.

Wagner Dias Ferreira
Advogado e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/MG
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