18 Out 2018 | domtotal.com

Se o bandolim falasse

Seu nome era Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, cujo centenário de nascimento comemora-se este ano.

Se o bandolim falou alguma vez, pode-se dizer que foi pelos dedos de Jacob.
Se o bandolim falou alguma vez, pode-se dizer que foi pelos dedos de Jacob. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

Naquela mesa ele sentava sempre e provavelmente não falava de política. Seu nome era Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, cujo centenário de nascimento comemora-se este ano.

Filho único do farmacêutico Francisco Gomes Bittencourt e da polonesa Raquel Pick, Jacob nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de fevereiro de 1918. Ao lado do clarinetista Abel Ferreira, do flautista Altamiro Carrilho e do cavaquinista Waldir Azevedo, ele foi um dos maiores nomes do choro de sua geração.

Desde cedo, Jacob demonstrou talento musical. Ainda criança, cantou no coral da escola onde estudava. Logo depois, passou a soprar uma gaita de boca, até que, aos 12 anos, ganhou da mãe um violino. Contudo, não demorou a trocar o presente erudito pelo popular bandolim.

O jovem inquieto sequer imaginava que pudesse se tornar um mestre do instrumento – que naquela época era mais tocado por mulheres. Afinal, o violão era associado à malandragem e quem o tocasse ficava malvisto. Talvez isso explique o fato de ainda existirem poucas mulheres violonistas.

Jacob tinha 15 anos quando se apresentou na Rádio Guanabara, acompanhado de três amigos instrumentistas. No ano seguinte, destacou-se também ao violão, tocando fados na emissora e no Clube Ginástico Português.

Premiado com nota máxima num concurso, na mesma rádio, ele foi convidado a acompanhar os cantores do cast. Seu conjunto recebeu o nome de Jacob e sua Gente. O outro grupo da estação se chamava Gente do Morro, sendo liderado pelo flautista Benedito Lacerda, parceiro de Pixinguinha. 

Clássicos do choro

Impossibilitado de viver exclusivamente da música, Jacob foi dono de farmácia e escrivão juramentado. Também trabalhou nos arquivos do Ministério da Guerra. Mas isso não o impediu de integrar o conjunto da Rádio Ipanema e estrear no mundo dos discos. Sua primeira gravação foi com Ataulfo Alves, no clássico “Ai, que saudades da Amélia”.

Finalmente, em 1947, ele gravaria seu primeiro disco pela Continental. A bolacha de 78 rotações incluiu o choro “Treme-Treme”, de sua autoria, e a valsa “Glória”, de Bonfiglio de Oliveira. A carreira começou a deslanchar com a gravação de outros discos e a composição de clássicos do choro, como “Doce de Coco”, “Noites Cariocas” e “Assanhado”.

O auge de sua trajetória foi no Conjunto Época de Ouro, ao lado de César Faria (pai de Paulinho da Viola), Dino Sete Cordas, Carlos Leite, Jonas da Silva e Gilberto d’Ávila. Em 1968, o grupo apresentou o show histórico gravado ao vivo no Teatro João Caetano, em benefício do Museu da Imagem e do Som, ao lado de Elizeth Cardoso e do Zimbo Trio.

Em 13 de agosto de 1969, após voltar da casa de Pixinguinha – com quem planejava gravar um LP –, Jacob do Bandolim sofreu um enfarto fulminante na presença da esposa Adylia, com quem tivera dois filhos. Um deles era o jornalista e compositor Sérgio Bittencourt, que lhe dedicou o famoso samba “Naquela mesa”, gravado por Nelson Gonçalves.

Se o bandolim falou alguma vez, pode-se dizer que foi pelos dedos de Jacob. Contudo, o Brasil do funk e do pagode sabe pouco sobre esse grande mestre da MPB, fonte de influência de outros ases do instrumento de quatro cordas duplas – entre eles os fabulosos Hamilton de Hollanda e Joel Nascimento.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas