21 Out 2018 | domtotal.com

Não entenderam nada

'O homem é, por natureza, um ser político' - Aristóteles (384 - 322 a.c).

'O homem é, por natureza, um ser político' - Aristóteles (384 - 322 a.c).
'O homem é, por natureza, um ser político' - Aristóteles (384 - 322 a.c). (Imagem livre de direitos)

Por Nany Mata

As forças se acabaram. Ou pelo menos a opção que resta é guardar a energia que não chegou ao fim para usar em combate. Porque esse momento há de chegar, ainda que não seja o que a gente queira. E, por quê? É que não entenderam nada.

Não há o que duvidar da fala de Aristóteles, citada acima: somos seres políticos. O conceito de cidadania, na Grécia Antiga, estava diretamente ligado à participação nas decisões relacionadas à cidade. Só era cidadão quem participava. 

De um jeito ou de outro, não há como separar o que somos de política.

Não sei você, mas ao meu redor, vejo pessoas em pânico. Andar na rua parece desafiador, quando você teme pela própria vida. Tive amigos ameaçados, não me encaminharam a notícia pelo whatsapp, me contaram, eu os conheço. 

É como se não desse para respirar normalmente. Só um sufoco. Padre Fábio de Melo disse, há umas duas semanas, que chegou a ter uma crise de ansiedade. Ele não foi o único. Noites mal dormidas. Porões, torturas, dor, sofrimento, mortes. O alívio de acordar aos prantos e descobrir que foi só um pesadelo. Ainda.

Certa vez, alguém me disse que crises de ansiedade são sintoma de lucidez, não de loucura.  

Loucura é o mal sendo celebrado. "Não vá discutir com sua família por causa de político. No fim das contas, esses corruptos são tudo farinha do mesmo saco e ficarão no poder, milionários. E você só terá sua família", dizem. 

Será? Não entenderam nada.

Foi-se o tempo em que política e futebol eram assuntos proibidos na mesa de almoço. E é por causa desse tempo que chegamos a esse ponto. Não é sobre política, nem sobre políticos. É muito além. 

Faltou diálogo, faltaram aulas de história, faltou empatia. Ah, faltou muito mais!

Quem não tem aquele primo alcoólatra ao qual insistem em oferecer bebida na Páscoa, mas se recusam a reconhecer que ele está doente e precisa de ajuda?

Tem também o sobrinho gay que tentam a todo custo colocar dentro do armário e perdeu a virgindade em um puteiro. Porque os tios queriam mostrar o que é ser homem.

Todos conhecem o casal que vive junto há 32 anos. Ela, traída desde antes do casamento, nunca teve o direito de ser feliz. Mas ninguém fala sobre isso. 

Eles sabem que veneram aquele familiar médico que distribui atestados e receitas para remédios controlados, enquanto compra recibos para sonegar impostos. 

Eles viram o primo forçar aquela menina do colégio a ficar com ele. Eles ouviram o outro se gabar da gata que agarrou a força em uma festa. Eles agarraram a própria prima.

Eram só brincadeiras, não vamos falar sobre isso. 

Eles viram tudo isso e muito mais, mas não entenderam nada. 

Nany Mata
Jornalista, especialista em Comunicação Corporativa e Inbound Marketing. Acredita nos Direitos Humanos, na luta feminista e LGBT. Não se acanha em ser acusada de defensora de bandidos ou utópica. Trabalhou e é voluntária da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), entidade sem fins lucrativos que visa a humanização no cumprimento da pena e a ressocialização de indivíduos que cometeram delitos.
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