01 Nov 2018 | domtotal.com

A regressão da inteligência

O interesse pelos livros tem diminuído a olhos vistos, enquanto o tempo de permanência nas redes sociais aumenta a cada dia.

A simplificação do vocabulário e a demonização do adversário são as principais evidências do emburrecimento.
A simplificação do vocabulário e a demonização do adversário são as principais evidências do emburrecimento. (Reprodução)

Por Jorge Fernando dos Santos

“A era da burrice” é o título da reportagem de capa da edição 394 da revista Super Interessante, publicada em outubro e à venda nas bancas. Escrita por Eduardo Szklarz e Bruno Garattoni, a matéria revela que o QI (Quociente de Inteligência) vem diminuindo em vários países.

As pesquisas sobre o tema não abrangem o Brasil, mas nem precisava. As discussões políticas do momento são a maior prova de que alguma coisa estranha está ocorrendo. Basta ver as redes sociais, para atestar a limitação argumentativa e o ódio nas postagens durante a campanha eleitoral.

A simplificação do vocabulário e a demonização do adversário são as principais evidências do emburrecimento. Em muitos casos, mesmo pessoas estudas banalizam o uso de palavras cujo verdadeiro significado parecem ignorar. É um tal de fascista pra cá, comunista pra lá, que até Deus duvida!

Na era do slogan e da Fake News, a discussão de ideias e projetos se tornou mais rasa que tábua molhada. Isso também se deve à redução no tempo de leitura das pessoas. O interesse pelos livros tem diminuído a olhos vistos, enquanto o tempo de permanência nas redes sociais aumenta a cada dia.

Preguiça cerebral

Segundo a reportagem da Super Interessante, os primeiros sinais da queda do QI surgiram na Dinamarca. Um teste aplicado em jovens alistados no serviço militar daquele país demonstrou que, depois de crescer ao longo do século passado, o quociente de inteligência começou a diminuir em 1998. Desde então, tem caído em média 2,7 pontos a cada década.

Na Holanda, a queda tem sido de 1,35 ponto. O fenômeno também é observado na Inglaterra (cuja perda varia de 2,5 a 3,4 pontos). A França, que já foi considerada um dos países mais cultos do mundo, apresenta redução no QI de até 3,8 pontos. Algo parecido estaria ocorrendo na Alemanha, Finlândia, Noruega, Portugal e Suécia.

Mas qual seria a causa? Os cientistas ainda não chegaram a uma conclusão. Talvez tenha a ver com a mudança nos hábitos alimentares, com o estresse ou o uso exagerado das plataformas digitais – o que torna o cérebro preguiçoso. Há pessoas que chegam a interromper suas atividades cerca de 150 vezes ao dia, para consultar o WhatsApp, o Facebook ou o Twitter.

Há que se considerar também a queda na qualidade do ensino básico em vários países. A França caiu para o nono lugar no ranking mundial – no qual a Coreia do Sul se tornou a campeã absoluta. O Brasil, por sua vez, ocupa a 60ª posição.

Recentemente, um estudo feito nos Estados Unidos revelou que a leitura é uma atividade fundamental para o desenvolvimento do cérebro. Leitores de poesia e ficção teriam mais facilidade para assimilar conhecimento e entender manuais técnicos. Contudo, o Dr. Google tomou o espaço dos livros, oferecendo informações nem sempre confiáveis sobre quase tudo.

Malefícios da TV

O tempo de permanência nos jogos virtuais é outro problema. E há que se observar a variedade de canais disponíveis na TV, cuja programação tem perdido qualidade há vários anos. Cientistas também apontam um fato incontestável: a música da moda tem poucas nuances melódicas, reduzindo-se quase sempre ao baticum eletrônico com letras sofríveis.

Numa entrevista ao jornal O Globo, na década de 1990, o escritor americano Norman Mailer já alertava para os perigos da “babá eletrônica”. Elevado à categoria dos grandes autores aos 25 anos – com o romance de guerra “Os nus e os mortos” –, ele profetizou: “a cultura acabará sendo sugada pela televisão; vai virar um hambúrguer do McDonald’s.”

Mailer dizia que os intervalos na programação televisiva condicionam as pessoas a interromper a concentração e a linha de raciocínio de cinco em cinco minutos – o que vem ocorrendo também no uso do celular. Com isso, muitos leitores passaram a ter dificuldades com frases e parágrafos longos.

Fato é que, nas redes sociais, ninguém lê textos caudalosos. A comunicação se dá por slogans e frases curtas, quase sempre mal escritas. O discurso político dispensa comentários, resumindo-se a acusações e xingamentos levianos. Parodiando Einstein, podemos dizer que as próximas eleições não serão mais uma guerra de palavras, mas de tacapes.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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