08 Nov 2018 | domtotal.com

Comentários infelizes

O Estado é laico justamente para garantir a liberdade de crença e de culto religioso a quem quer que seja.

Fazer oposição antes mesmo da posse do eleito parece um ato de desespero.
Fazer oposição antes mesmo da posse do eleito parece um ato de desespero. (Jose Cruz /Agencia Brasil)

Por Jorge Fernando dos Santos

Depois da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais, alguns jornalistas parecem ter perdido o senso de realidade. Afinal, mesmo sendo uma incógnita em alguns aspectos, um presidente eleito – não importa o partido – merece crédito pelo simples fato de ter sido escolhido democraticamente pela maioria dos eleitores.

Fazer oposição antes mesmo da posse do eleito parece um ato de desespero, típico de quem não sabe perder ou não compreende os fatos. Criticar é direito de todos, desde que não se perca o equilíbrio. Isso vale principalmente para quem trabalha nos veículos de comunicação.

Na noite de 28 de outubro, após a divulgação dos resultados do pleito, o novo presidente da República pronunciou-se diante da Bíblia, da Constituição Federal e de uma biografia do estadista Winston Churchill. A seguir, reapareceu diante da imprensa dizendo uma frase de São Mateus. Em seguida, rezou de mãos dadas com a esposa e alguns correligionários.

A reação de Mirian Leitão, da Globo News, foi imediata. Ela disse que aquela cena a preocupava, uma vez que o Estado brasileiro é laico. Ora, ora, ora! O Estado é laico justamente para garantir a liberdade de crença e de culto religioso a quem quer que seja. Salve engano, ela não se preocupou ao ver o candidato Haddad e sua vice comungando em Aparecida do Norte.

Causa espanto que uma simples demonstração de fé gere preocupação numa jornalista tão experiente – que, aliás, já foi vaiada por supostos ateus. Convém lembrar que há 30 anos, ao assinar a promulgação da “Constituição Cidadã” e laica, o saudoso Ulisses Guimarães declarou: “Que Deus nos ajude, que isto se cumpra”. 

Foguetes e fuzis

A também comentarista da Globo News, Cristiana Lobo, chegou a ironizar a nomeação do astronauta Marcos Pontes para o Ministério de Ciência e Tecnologia: “Quem sabe ele vai construir um foguete para nós?” Metaforicamente, talvez ele até construa, tirando o país do atraso tecnológico em que se encontra. Afinal, currículo não lhe falta.

Mas os comentários impensados também surgem diante de outros “azarões” do pleito deste ano. Foram controversas, por exemplo, as palavras de Maria Beltrão numa entrevista com o governador eleito do Rio, Erick Witzel – que defende o uso de atiradores de elite contra traficantes armados de fuzis.

Em determinado momento da conversa, a jornalista disse: “Vamos imaginar o seguinte cenário... Um cidadão está com um fuzil, de costas, e existe a possibilidade de um sniper executá-lo sem que ele esteja representando nenhuma ameaça”.

Em primeiro lugar, bandido armado não é propriamente um cidadão. Em segundo, em qualquer país civilizado, um elemento não autorizado empunhando arma restrita representa, sim, uma séria ameaça à segurança. Nesses países, criminosos não são considerados vítimas sociais e geralmente recebem o tratamento merecido por parte das autoridades.

Em respeito aos assinantes da emissora – tantas vezes chamada de golpista por militantes de esquerda –, a direção da Globo News deveria orientar seus profissionais no sentido evitar tantas gafes. Poderia, também, alertá-los para o uso repetido de chavões e vícios de linguagem, que doem nos ouvidos do telespectador (cliente) mais atento.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
Comentários
+ Artigos
Instituições Conveniadas