16 Nov 2018 | domtotal.com

Temer e Bolsonaro, fato e argumento?

A questão sobre ser ou não ser golpe é importante, mas não determinou o que viria em seguida.

Agora teremos mais quatro anos de Temer, com requintes bolsonaristas de crueldade.
Agora teremos mais quatro anos de Temer, com requintes bolsonaristas de crueldade. (Rogério Melo/PR)

Por Marcel Farah

História recente. Os últimos quatro anos foram marcados por uma diversidade de eventos que alteraram os rumos de nossos destinos. Tivemos uma eleição conturbada em 2014, vencida por um “beiço de pulga” por Dilma.

Tivemos a eleição de um notório corrupto, Eduardo Cunha, para dirigir o Legislativo naquele período. E ainda tivemos a nomeação de Joaquim Levy, o banqueiro (ou “estagiário de banqueiro”), como ministro da economia de Dilma.

Com essa atitude Dilma mostrou que não faria o que prometeu em sua campanha, ao invés de mais mudanças, aplicou o arrocho prometido pelo seu adversário. Logo, seu governo gerou desemprego, perdeu base social e abriu caminho para o golpe. Quando percebeu que não ganharia apoios com essa tática, era tarde demais.

Logo mais, em 2015, Eduardo Cunha, movido pelo desejo de vingança contra o PT, que não o salvou na comissão de ética, aceitou um pedido de impedimento de Dilma, aquele redigido por Janaína Pascoal e Hélio Bicudo.

O cenário em 2016, a essa altura, já demonstrava que não seria favorável à “continuidade das mudanças” eleita para o governo em 2014. Mesmo que Dilma, percebendo os erros, buscasse uma retomada econômica e principalmente de empregos, venceria o golpe parlamentar.

A questão sobre ser ou não ser golpe é importante, mas não determinou o que viria em seguida.

O que veio em seguida ao golpe foi o governo Temer. Quer se admita ter havido golpe ou não, o que não ficou nítido para a população foi que Temer aplicou as propostas derrotadas nas urnas em 2014, as propostas de Aécio. Reforma trabalhista, congelamento dos investimentos públicos por 20 anos, reforma da previdência, reforma do ensino médio em prol das escolas particulares, arrocho fiscal etc.

O Brasil viveu, portanto, nesses dois anos de Temer, um ensaio da volta ao neoliberalismo sem, contudo, diferenciar este momento daquele anterior, dos governos Lula e Dilma. A narrativa que prevaleceu foi esta de que o voto no PT seria de continuidade, mas a continuidade de Temer, e de que Bolsonaro representaria mudança.

Essa história foi temperada com uma porção de “fakes”, por exemplo, a “satanização” de Haddad e do PT, o “perigo” comunista que ronda nossas vidas, as “ameaças” à moral e à família, o “aparelhamento” e “inchaço” do estado feito pelo PT, além do “maior mal” desse partido, a corrupção. Todas análise e informações mancas, desonestas, literalmente mentirosas. Fomentados pelo ódio de classe, argumentos foram transformados em fatos, aqui o maior perigo. Mas, o central é que perdemos politicamente, a narrativa.

Agora teremos mais quatro anos de Temer, com requintes bolsonaristas de crueldade. E o desafio central é retomar a disputa de narrativa, afinal, “contra fatos não há argumentos”, ou há?

Marcel Farah
Educador Popular
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