16 Nov 2018 | domtotal.com

Meu pé de jabuticaba

Precisamos de outro termo para falar de nossas idiossincrasias, de nossas excentricidades, sem ofender as jabuticabas.

Jabuticaba é fruta para quem não para na aparência, é para quem saber degustar junto ao pé.
Jabuticaba é fruta para quem não para na aparência, é para quem saber degustar junto ao pé. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Numa festa de criança, ouvi um menino falando com sua mãe que gostava de mirtilo. Fiquei pensando na minha infância pobre no interior mineiro. Mirtilo! A gente conhecia banana, laranja, maçã, ameixa, pera, manga, limão, abacate, jabuticaba, caqui, mamão, tangerina... mas mirtilo? Não. Isso não estava no imaginário, nem no “sacolão” (ou “verdurão”, como dizem em algumas cidades) e muito menos no mercadinho da dona Margarida.

Vim a conhecer mirtilo bem mais velho e com o nome – que me soava ser mais chique porque era em inglês – de blueberry. Frutinha besta! Mas tudo o que é em língua estrangeira fica mais interessante, como o aperitivo que vi na lista de um buffet. O enroladinho de abobrinha tornara-se o refinado involtini di zucchini. Acho que gostamos de nomes diferentes. Quando criança, a fruta mais sofisticada era nectarina, que é uma variedade de pêssego, mas que o povo acreditava ser produzida em laboratório num cruzamento de pêssego e ameixa.

Antigamente tinha essa coisa de fruta da época, porque não havia tanta tecnologia para forçar amadurecimento de plantas ou para obriga-las a dar seus frutos num ciclo que não é o seu natural. Hoje você encontra qualquer fruta em qualquer época. Dizem que “agro é tech”, mas não sei se isso é bom para a plantação ou para a saúde humana. Nossa mesa tem sido contaminada pelos agrotóxicos, que ganharam nomes bonitos como 'produtos fitossanitários' ou 'defensivos agrícolas', utilizados muitas vezes de modo contrário ao orientado pela comunidade científica e entidades ligadas à saúde. É que a lógica do lucro contamina a mente antes de contaminar a comida. Fitossanitário é novo involtini di zucchini.

Apesar de tudo, a época própria de uma fruta ainda nos rende melhores produtos. E agora é época de floração da jabuticaba, fruta que serve para falar das idiossincrasias nacionais. “Isso é igual jabuticaba, só dá no Brasil” – dizem, sobretudo, nas rodas de conversa política. Contudo, quando falam assim, trata-se sempre de algo depreciativo, que não condiz com a beleza roxa desse fruto típico da Mata Atlântica. Com jabuticaba se faz licor, geleia e uma diversidade de pratos gostosos, além de ser utilizada na medicina natural.

Precisamos de outro termo para falar de nossas idiossincrasias, de nossas excentricidades, sem ofender as jabuticabas. Aliás, muitas dessas exoticidades não são exclusivas do Brasil, embora tudo que aqui se plante dê em abundância, como o famigerado pensamento “Nazismo é de Esquerda” ou mesmo “A Terra é plana”. Algumas burrices e bobagens parecem que ganham maior repercussão e eco na Terra de Santa Cruz, mas não acontecem só por aqui. Muitas vêm de fora e são abraçadas como a verdade fundamental de uma vida.

As deturpações sobre a Esquerda (quase ninguém leu Marx e o estudou de verdade, mas todo mundo tem uma opinião que julga ser legítima) e sobre os Estudos de Gênero (também não estudados pela maioria da população) não acontecem só no Brasil. Mas aqui isso foi potencializado  em tramas ultraelaboradas de que tudo é culpa dos LGBTs em conluio com o PT que quer acabar com a família tradicional e implantar uma ditadura bolivariana, abortista, gayzista etc. Ainda colhemos frutos das Fake News eleitorais, que parecem ter vindo para ficar. Depois que a poeira baixa é que muitos conseguem ver o quão ridículo é acreditar que uma mamadeira erótica seria distribuída para crianças.

Falta-nos critérios avaliativos para discernirmos verdade e mentira, para fazer um juízo equilibrado sobre o que ouvimos e lemos. E isso se adquire com maturidade de estudo e tempo para reflexão. Ver vários vídeos no youtube não substitui uma pesquisa séria e orientada. Acontece que há uma legião de semialfabetizados dotados de diplomas universitários de instituições de empresas de educação superior, onde a satisfação do cliente vale mais que o conhecimento, que se crê dotada de sabedoria e que tece discursos estapafúrdios sem aprofundar sobre o que querem falar e sem refletir profundamente. Certas opiniões são apenas frutos verdes com aparência de maduros que nascem pela pressão midiática e pelo veneno de Fake News. Frutas de boa aparência, mas sem vitaminas e de gosto ruim.

Geralmente as jabuticabas florecem de julho a agosto e de novembro a dezembro. Seus frutos amadurecem entre agosto e setembro e entre janeiro a fevereiro. E é bonito ver um pé completamente carregado daquelas bolinhas que mais parecem olhos negros. Mirtilos (ou blueberries) também são bonitos, mas nem por isso diminuem o valor daquilo que, por nos ser comum, não parecem ser chiques. Jabuticaba é fruta para quem não para na aparência, é para quem saber degustar junto ao pé.

Dos dias 15 a 18 de novembro, na Praça Melo Viana, no Centro Histórico de Sabará, acontece o tradicional Festival da Jabuticaba. São 25 expositores da fruta in natura, 26 estandes de derivados e 20 espaços gastronômicos com pratos à base de jabuticaba. Além disso, a festa conta com atrações culturais, como shows de música e dança, e feira de artesanato.

32º Festival da Jabuticaba

Data: 15 a 18 de novembro
Horário: 9h às 23h
Local: Praça Melo Viana - Centro Histórico, Sabará
Entrada gratuita

Informações no Facebook.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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