23 Nov 2018 | domtotal.com

Uma visão política do processo político

Por outro lado, a ânsia de combate à corrupção motivou muitos dos votos em candidatos de direita com discursos de combate duro contra 'tudo que ai está'.

Fake por fake, por que as mentiras contra o PT grudam como carrapato na opinião pública, enquanto as verdades sobre Bolsonaro são solenemente ignoradas?
Fake por fake, por que as mentiras contra o PT grudam como carrapato na opinião pública, enquanto as verdades sobre Bolsonaro são solenemente ignoradas? (Reprodução)

Por Marcel Farah

​Grande parte da sociedade brasileira acredita que as últimas eleições foram decididas pelo tripé, combate à corrupção, antipetismo e whats app. Contudo, uma leitura mais cuidadosa do processo histórico sugere que estes elementos sejam acessórios das causas de fundo que resultaram neste desenrolar.

Aparentemente uma onda de fake news varreu os moderados e conservadores, PSDB, DEM, MDB, PPS etc, da cena eleitoral e derrotou a esquerda na disputa presidencial. Contudo, fake por fake, por que as mentiras contra o PT grudam como carrapato na opinião pública, enquanto as verdades sobre Bolsonaro são solenemente ignoradas?

Por outro lado, a ânsia de combate à corrupção motivou muitos dos votos em candidatos de direita com discursos de combate duro contra “tudo que ai está”. O alvo mais frequente de tais ataques foi o PT e Lula. Contudo, pouca importância tem sido dada ao fato, cada dia mais nítido de que o presidente eleito nunca foi anti-sistema, justamente por ser a pior parte do sistema. Por isso, mesmo com indícios de uso milionário de caxa 2, ou com a nomeação de ministros políticos profissionais e corruptos, com poucas exceções, a imagem do futuro governo permanece inalterada.

Finalmente, o antipetismo foi responsabilizado pela vitória de Bolsonaro, e a falta de autocrítica da esquerda seria a causa do crescimento do fascismo. Não seria mais plausível entender o que permitiu que uma ideologia tão nefasta e autoritária prosperasse em nosso terreno político, ao invés de culpar o PT? Por que o consenso democrático foi colocado de lado? Quem incentivou que as ideias preconceituosas “saíssem do armário”, recuperassem sua legitimidade pública? Quem retirou Olavo de Carvalho das obras de ficção?

Alvaro Garcia Linera, em curta entrevista para a Folha[1], apresenta uma análise do processo que responde essas questões. Segundo o vice-presidente da Bolívia, todo processo de transformação sociológico gera uma reação, o que explicaria o crescimento da direita após o período de predomínio de uma política progressista no governo federal, 13 anos de governos petistas.

Ainda conforme o sociólogo, esta reação deveria ser prevista para se evitar que chegasse ao extremo que chegou. Com essa perspectiva ele aborda a necessidade de autocrítica da esquerda, identificar “porque tropeçou e não tropeçar de novo”.

Quando questionado sobre como evitar esse processo, o boliviano toca no ponto central, talvez ignorado pelo PT e principalmente pelo segundo governo Dilma, Linera erige a estabilidade econômica como principal medida para evitar uma reação conservadora. Ele afirma: “Quando setores populares sobem, precisam ter garantia de que há estabilidade e continuidade na ascenção. Se isso não ocorre, esses setores podem se acoplar ideologicamente ao sentimento conservador que predomina na classe média.”

De fato, considerando essa hipótese, quando Dilma assumiu a pauta do arrocho fiscal à custa de aumento do desemprego e desaquecimento da economia, em janeiro de 2015, como forma de reconstruir uma aliança com indústrias e banqueiros, sua base social desmoronou. Logo, a força da oposição cresceu a ponto de ser possível o golpe de 2016 e até mesmo a eleição de 2018. Ou seja, a instabilidade econômica fragilizou o pacto entre o governo federal e a maioria da população.

O ocorrido, contudo, não prosperaria sem a segunda medida apontada por Linera para evitar a reação conservadora, que seria “apontar futuro”. Nessa questão a esquerda falhou, e principalmente o PT, por um lado, por não conseguir construir uma narrativa unificada sobre o projeto que defende, chegando ao ponto de ter Temer como vice-presidente nos dois últimos mandatos do governo federal, de ameaçar fazer uma reforma da previdência, de reduzir ministérios como se isso reduzisse os gastos do Estado etc.

Por outro lado, o PT não visualizou com nitidez seus adversários. Me refiro ao oligopólio da mídia, maior responsável pelo fortalecimento de ideias de extrema direita, lembram-se da Globo fazendo convocações para as manifestações dos coxinhas pelo impedimento de Dilma? Também o Ministério Público, que chegou a fazer aquele “power point” em que Lula seria chefe de uma organização criminosa, ou o Judiciário, com a divulgação dos grampos ilegais das conversa entre Dilma e Lula. Esses são exemplos de guerra cultural, apontar futuro tem a ver com guerra cultural.

O curioso, nesse ponto, é que os teóricos da extrema direita acusam a esquerda de praticar abertamente tal disputa no campo da cultura. Referem-se a Gramsci como se ele fosse predominante na definição das políticas do PT à frente do governo, quando, na realidade, foi o contrário, faltou Gramsci e faltou disputa cultural. Faltou a criação de “uma nova cultura, mais solidária e afincada na auto-organização coletiva”, nas palavras de Linera.

A visão, portanto, mais acurada histórica e politicamente, dos dias atuais, passa pelas escolhas políticas da esquerda e da direita. Segundo este raciocínio, o zap, a pauta da corrupção e o antipetismo, são instrumentos de um movimento mais profundo relacionado com a vida concreta das pessoas, com a economia e com a política. Não quero dizer que não sejam elementos importantes, mas este movimento de fundo é o que dá sentido ao estudo de como o zap, o antipetismo, a corrupção, o caixa 2 influenciam a luta política.

[1]Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/11/esquerda-no-brasil-falhou-em-apontar-futuro-diz-vice-de-evo-morales.shtml

Marcel Farah
Educador Popular
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