27 Nov 2018 | domtotal.com

Estados de espírito

Passado o pleito, as fissuras abertas no estado de espírito do brasileiro ainda não cicatrizaram.

Relações familiares foram rompidas, amizades se desfizeram, batalhas nas redes digitais se intensificaram.
Relações familiares foram rompidas, amizades se desfizeram, batalhas nas redes digitais se intensificaram. (Reprodução/ Pixabay)

Por Frei Betto

Há momentos em que prefiro Bach, na expectativa de que me antecipe o céu. Em outros, Tchaikovsky, para que me suscite energias criativas. Nosso estado de espírito muda de acordo com as circunstâncias. Como reza o Eclesiastes, há tempo para tudo, de destruir e de construir, de chorar e de rir. Agora, vitoriosos e derrotados na eleição presidencial conhecem tempos distintos.

Passado o pleito, as fissuras abertas no estado de espírito do brasileiro ainda não cicatrizaram. Relações familiares foram rompidas, amizades se desfizeram, batalhas nas redes digitais se intensificaram.

Conhecida a preferência das urnas, os estados de espírito variam. Há derrotados que sofrem de melancolia e insônia, afogam-se em inquietações e lamúrias. Os mais politizados afirmam que é hora de o PT fazer autocrítica e se reinventar. Mas há quem insista que não há do que se arrepender; os acertos do partido teriam sido maiores que os erros. E há ainda os que estão convencidos de que o PT acabou, ainda que tenha elegido a maior bancada da Câmara dos Deputados e quatro governadores.

Do lado vitorioso, o estado de espírito varia da euforia desaforada, ao fazer eco ao eleito de que é hora de passar o trator na oposição, ao receio de que o novo governo não corresponda à expectativa criada. Depositou-se o voto na caixa de Pandora sem saber o que ela contém. A democracia será aprimorada ou a censura estará de volta? A Escola sem Partido criará um clima de terror nas salas de aula? Sérgio Moro fez bem ao se deixar picar pela mosca azul? O Brasil haverá de superar a recessão, retomar o crescimento e reduzir o desemprego?

Eleitores de um e de outro têm um sentimento comum: medo. Não do mesmo tipo. O dos antibolsonaristas é o de que vândalos antipetistas aprofundem o clima de intolerância e ameacem direitos constitucionais, como a liberdade de expressão. Alguns derrotados mais aquinhoados cogitam deixar o país.

Do lado da situação, o medo é ver tamanha esperança precocemente abortada. Desavenças na equipe de governo, nomeação de políticos acusados de corrupção, atropelos entre os poderes, e dificuldade de aprovar as tão propaladas reformas. Medo de ser feliz à custa do encolhimento dos direitos civis e do espaço democrático.

A eleição deste ano representou o canto do cisne da Nova República. Ninguém sabe o que virá pela frente, nem mesmo aqueles que se preparam para governar. O programa de governo apresentado é superficial. Prefere apontar prioridades, como a reforma da Previdência, o combate ao crime organizado e o equilíbrio das contas públicas. Mas como fazê-los?, eis o dilema.

Na reforma da Previdência, haverá quem seja poupado, como os militares? No combate ao crime organizado a prioridade é prender bandidos ou erradicar as causas que favorecem o narcotráfico, o comércio ilegal de armas e as penitenciárias como centrais do crime? E na questão fiscal, mais cortes, mais contingenciamentos e privatizações ou o Estado como indutor do desenvolvimento e da criação de empregos? E como fica a prioridade das prioridades do brasileiro, o atendimento à saúde? Com a saída dos médicos de Cuba que atendiam a população mais pobre e as áreas mais remotas do país,  quem e quando serão substituídos, sobretudo nos 3.228 municípios assistidos exclusivamente pelos cubanos?

“Não se faz omelete sem quebrar os ovos”, diz o ditado. Que ovos serão quebrados? E quem haverá de comer o omelete? É bom lembrar que, dos 208 milhões de brasileiros, mais de 100 milhões sobrevivem com menos de R$ 954 (valor do salário mínimo) por mês. Destes, 52 milhões estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, sobrevivem com menos de R$ 547,20/mês. Isso significa que 90% dos brasileiros ganham, por mês, muito menos que o auxílio-moradia dos juízes, que é de R$ 4.378.

Ora, o Brasil não terá futuro e o estado de espírito do brasileiro não haverá de melhorar enquanto o problema número 1 do país não for decididamente atacado: a desigualdade social. Só os cínicos e os ególatras conseguem aparentar felicidade com tanta infelicidade em volta.

Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de "A Obra do Artista – uma visão holística do Universo", "Um homem chamado Jesus", "Batismo de Sangue", "A Mosca Azul", entre outros.
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