28 Nov 2018 | domtotal.com

Sem juízo

Apesar do fluxo intenso de informações e os avanços das ciências, ainda tendemos à absolutização dos valores pessoais.

Se o sertanejo faz chorar, à pessoa que por ele foi tocada, vale mais que uma sinfonia de Schubert. Não precisa ser o agora aclamado
Se o sertanejo faz chorar, à pessoa que por ele foi tocada, vale mais que uma sinfonia de Schubert. Não precisa ser o agora aclamado "de raiz", outrora tido como inferior. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira

Não fazer juízo de valor é uma tarefa tão difícil! Durante a história encontramos constantemente a busca por valores e saberes universais, que fossem válidos em todos os tempos e lugares. Acontece que toda regra tem suas exceções e os valores são construídos histórica e socialmente.

Digo isso porque, apesar do fluxo intenso de informações e os avanços das ciências, ainda tendemos à absolutização dos valores pessoais. Vi recentemente uma postagem que criticava artistas pops atuais como se fossem inferiores aos de outra geração. Isso me lembrou a ideia de rima pobre e rima rica em poesia. Segundo essa teoria, rimar palavras pertencentes à mesma classe gramatical seria pobre; classes distintas, rica. Ou seja, amor e dor é rima pobre porque ambas são substantivos; construa e nua, por combinar verbo e adjetivo, rica. Simplesmente um juízo de valor.

Se uma poesia ou música lhe desperta sentimentos, abre sentidos, leva à outra compreensão de mundo, se mexe com você, mas usa como rima palavras de uma mesma classe gramatical, seria isso algo de menor valor? Ou por acaso combinar reflita com aflita torna realmente uma poesia mais rica? Talvez o trabalho de criar frases com terminações distintas em classes gramaticais num texto coeso seja grande e mais difícil, mas nem por isso cumpre necessariamente seu objetivo comunicativo ou provoca algo no seu leitor/ouvinte. Dizer que algo intelectualmente mais laborioso vale mais que algo que mexe com sentimentos é puro juízo de valor. Então, se o sertanejo faz chorar, à pessoa que por ele foi tocada, vale mais que uma sinfonia de Schubert - não precisa ser o agora aclamado "de raiz", outrora tido como inferior. Se Pabllo Vittar faz alguém triste dançar, a este vale mais que um rock que, embora complexo, possa levar somente a balançar a cabeça.

O tempo ajuda a perceber que a apreciação estética não é eterna. Basta lembrar as considerações negativas que o rock recebeu, até ser tido como música do diabo. Hoje, diferentemente, é tido por muitos como música superior aos gêneros populares. Em contrapartida, há muita produção de qualidade duvidosa que goza de popularidade simplesmente porque tem visibilidade midiática. Ou seja, não se pode fazer juízo de valor simplesmente pela aceitação ou rejeição da maioria. Toda apreciação é relativa a algo que se valoriza. O critério pode ser harmonia, complexidade, despertar de emoções etc.

Todo adjetivo é um juízo que toma algo como parâmetro. Chamo um prédio de 20 andares de grande. Mas ele é grande em relação a que? Se tomo o corpo humano como comparação ou mesmo uma simples casa, o prédio é grande. Entretanto, se tenho uma montanha como referência, o prédio é pequeno. Grande ou pequeno não são unidades absolutas, mas valorações que tomam outra coisa como referência. O mesmo vale para bonito e feio e até mesmo para bom e mau. Uma pessoa de fé tem a capacidade de reler uma tragédia e ver nela algo que a levou para um destino melhor e, assim, no todo de sua história, considerar que aquele “mal, em Deus, tornou-se bem”. Tudo depende do que se considera.

Lidar com essa flexibilidade e perguntar-se sobre as referências e balizas de cada coisa não é tarefa fácil. A insegurança humana pede pontos sólidos nos quais possa se firmar. Talvez por isso os dias atuais sejam tão marcados pela busca de restaurar estruturas do passado. Com as desconstruções operadas no campo do pensamento, que passou a se indagar sobre em que medida se pode afirmar uma determinada coisa – como o que é ser homem ou que é uma família (para citar exemplos polêmicos) –, muitos se sentiram perdidos e desejosos de um tempo onde as coisas eram “assim e ponto”.  Ainda que essas perguntas já fossem feitas antes, alguns idealizaram um passado perfeito e seguro que querem recompor (mesmo que nunca tenha existido).

Não obstante, o passado não volta. Mesmo na memória ele já recebe influências e interpretações do presente. Refugiar-se nele é fugir da incerteza do futuro diante de um presente fluido. Tudo isso é fruto da angústia, esse mal-estar diante da liberdade de escolhas ofertadas no presente e que se apresentam como incertas. Talvez o melhor – e isso já é um juízo de valor – seja apreciar, mais que julgar. Arrepie-se com a ópera, viaje com a música clássica, emocione-se com o rock, dance com o funk, relaxe com o jazz. A emoção não é inferior à razão nem os sentimentos em relação ao trabalho cerebral. Viver supera essa necessidade de criar hierarquias. Portanto, permita-se e sinta. Às vezes o juízo de valor é só uma máscara para a própria insegurança.

Cantores - Geraldo Azevedo, Renato Teixeira & Xangai

No dia 22 de dezembro (sábado), às 21h, o Grande Teatro do Palácio das Artes será palco do espetáculo "Cantadores", que promoverá um encontro histórico e inédito entre Geraldo Azevedo, Renato Teixeira e Xangai.

Geraldo Azevedo, 73 anos, é pernambucano de Petrolina. Compositor, violonista e cantor do primeiro time da música popular brasileira, o artista é dono de um repertório icônico, com mais de 50 anos de carreira. É conhecido por sucessos como “Dia Branco”, “Táxi Lunar” e “Dona da Minha Cabeça”, entre outros, e por importantes parcerias com Alceu Valença, Elba Ramalho e Zé Ramalho.

Renato Teixeira, também com 73 anos, é paulista de Santos. Teixeira é autor de conhecidas canções, como "Romaria" (grande sucesso na gravação de Elis Regina, em 1977), "Tocando em Frente" (em parceria com Almir Sater, gravada também por Maria Bethânia), "Dadá Maria" (em dueto com Gal Costa), "Frete"(tema de abertura do seriado “Carga Pesada”, da Rede Globo) e "Amanheceu".Além da exitosa carreira solo, vale destacar seu trabalho ao lado de Almir Sater
e Sérgio Reis.

De Itapebi, extremo sul da Bahia, Xangai (Eugênio Avelino) é o mais ‘menino’dos três, acabou de completar 70 anos. Dono de uma voz potente e ótimo violonista, Xangai tem o dom de trazer aos holofotes grandes compositores dointerior do Brasil. É considerado por muitos como o maior intérprete da singular obra de Elomar.

Os três subirão ao palco munidos de suas vozes, violões e de um repertório rico, que mescla canções regionais com grandes hinos da MPB. Um verdadeiro presente para o público mineiro!

SERVIÇO:
CANTADORES – GERALDO AZEVEDO, RENATO TEIXEIRA & XANGAI
DATA / HORA
22/12/18 (sábado), às 21h00.

LOCAL
Palácio das Artes | Av. Afonso Pena, 1.537 – Centro – Belo Horizonte/MG.

INGRESSOS
- Plateia I: R$ 180 (inteira) / R$ 90 (meia)
- Plateia II: R$ 160 (inteira) / R$ 80 (meia)
- Plateia Superior: R$ 140 (inteira) / R$ 70 (meia)

PONTOS DE VENDA
Bilheteria do Palácio das Artes e www.ingressorapido.com.br.

Gilmar Pereira
Gilmar Pereira é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP; bacharel e licenciado em Filosofia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF); bacharel em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Também possui formação em Fotografia pelo SESI-MG/ Studio 3 Escola de Fotografia. É responsável pela editoria de Religião do portal Dom Total, onde também é colunista. Atua como palestrante há 18 anos, com grande experiência no campo religioso, tem ministrado diversos minicursos nas áreas de Filosofia, Teologia e Comunicação. Possui experiência como professor de Filosofia e Sociologia e como mestre de cerimônia. Leciona oratória na Dom Helder Escola de Direito e ministra a disciplina ''A comunicação como evento teológico'' na especialização ''Desafios para a Igreja na Era Digital''.
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