29 Nov 2018 | domtotal.com

Escola sem doutrinação

Não se trata de cercear a liberdade de expressão da esquerda, mas impedir que a esquerda cerceie a liberdade de pensamento.

Como ministro, Ricardo Vélez-Rodriguez terá a dura tarefa de quebrar o monopólio marxista e a melhor receita para isso é abrir espaço a diferentes formas de pensamento.
Como ministro, Ricardo Vélez-Rodriguez terá a dura tarefa de quebrar o monopólio marxista e a melhor receita para isso é abrir espaço a diferentes formas de pensamento. (Reprodução / TV Globo)

Por Jorge Fernando dos Santos

A escolha do filósofo Ricardo Vélez-Rodriguez para o Ministério da Educação ocorre em consonância com o projeto Escola sem Partido, cujo objetivo seria conter a doutrinação marxista nas escolas e universidades. Teólogo e filósofo colombiano naturalizado brasileiro com mais de 30 livros publicados, seu nome foi sugerido a Jair Bolsonaro pelo colega Olavo de Carvalho.

Guru da direita, Olavo denuncia a doutrinação marxista, mas também critica o Escola sem Partido. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, ele disse que o projeto é ridículo, pois “se tornou objeto de discussão e o problema do qual ele trata sumiu da discussão. O problema é a dominação que os comunistas exercem na educação brasileira (...) Guerra cultural é vencida por intelectuais, não por legisladores, não por advogados, não pela polícia”.

De fato, o nome trai a ideia. Não se trata de cercear a liberdade de expressão da esquerda, mas impedir que a esquerda cerceie a liberdade de pensamento. Vetar a discussão política seria repetir um dos erros do regime militar, que considerava qualquer conversa sobre o tema um ato de subversão. Em consequência, o homem comum ficou despolitizado e a esquerda tomou a palavra em nome da liberdade.

No auge da guerra fria, militantes aguerridos posavam de defensores da democracia. Aos olhos desavisados, ser de esquerda virou sinônimo de heroísmo e resistência. A maioria dos ativistas, no entanto, conspirava em favor da ditadura do proletariado. Impedidas de se manifestar publicamente, minorias discriminadas encontraram guarida justamente entre eles e passaram a ser doutrinadas.

Ideias de Gramsci

Curioso notar que os comunistas demoraram a abraçar as causas minoritárias. No ensaio “Humanismo proletário”, por exemplo, o escritor soviético Máximo Gorki chegou a defender o extermínio dos homossexuais como a melhor forma de derrotar o fascismo. A esquerda considerava o homossexualismo um “mal burguês” e também demorou a compreender o feminismo e a causa ecológica.

Foi a partir de Antonio Gramsci que o marxismo começou a mudar. Ciente de que a modernização dos meios de produção diminuiria a força política dos trabalhadores, o pensador italiano propôs usar as minorias como mão de obra revolucionária. Uma vez conquistado o poder, elas seriam descartadas como “idiotas úteis”. Em vez da revolução pelas armas, Gramsci propôs subverter o ensino e as instituições em nome da “revolução cultural”.

No Brasil, a ideia chegou às escolas pelas mãos do educador Paulo Freire, mas quem melhor fez o dever de casa foi o PT. O controle dos meios estudantil e sindical, bem como dos movimentos sociais e da própria mídia, tornou-se a principal estratégia de luta. Nesse sentido, adversários da causa passaram a ser demonizados. Exemplo disso foi a tentativa de desqualificar os eleitores de Bolsonaro.  

Minas ideológicas

No dia seguinte ao segundo turno, alunos da UnB vestidos com a camisa do candidato eleito foram agredidos por colegas de esquerda. Um desses chegou a declarar: “Não aceitaremos fascistas na nossa escola” – como se a universidade pertencesse a um único segmento político. Tudo indica que os bolsonaristas quiseram provocar os “idiotas úteis”, que se comportaram como era previsto.

Um dos desafios do novo governo será, justamente, desarmar as minas ideológicas no serviço público e no ambiente escolar. A estratégia exige habilidade, pois qualquer ação autoritária sairá pela culatra. Nada pior que uma onda de perseguição àqueles que pensam diferente. É preciso lembrar que o papel da escola é disseminar conhecimento, deixando a educação para os pais.

Como ministro, Ricardo Vélez-Rodriguez terá a dura tarefa de quebrar o monopólio marxista e a melhor receita para isso é abrir espaço a diferentes formas de pensamento. Somente desse jeito será possível enfrentar os doutrinadores, arejando o ambiente escolar e melhorando a qualidade do ensino brasileiro – que tem sido considerado um dos piores do mundo.

Jorge Fernando dos Santos
Jornalista, escritor, compositor, tem 44 livros publicados. Entre eles Palmeira Seca (Ed. Atual), Prêmio Guimarães Rosa em 1989; ABC da MPB (Paulus), selo altamente recomendável da FNLIJ em 2003; Alguém tem que ficar no gol (SM), finalista do Prêmio Jabuti em 2014; Vandré - o homem que disse não (Geração), finalista do Prêmio da APCA em 2015; e A Turma da Savassi (Quixote).
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